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Rotina sem cafeína: descafeinados conquistam consumidores no mundo todo
Seja por escolha de estilo de vida ou por questão de saúde, o consumo de cafés descafeinados cresceu e pode movimentar mais de US$ 30 bilhões até 2033
Por Kelly Stein
O mercado global de cafés descafeinados avança em ritmo acelerado. A agenda do bem-estar ganhou força: menos excessos, menos estímulos, menos cafeína. Desacelerar, portanto, passou a orientar escolhas de consumo. Nesse contexto, o café descafeinado, relegado a segundo plano por muito tempo, encontrou espaço para se reposicionar.
O antigo jargão “decaf before death” soa cada vez mais deslocado. Popular entre apreciadores de cafés especiais no passado, a expressão ironizava o descafeinado como última escolha, quase uma concessão feita apenas no fim da vida. Durante anos, a bebida foi associada à perda de intensidade e de experiência sensorial. Agora, a narrativa começa a mudar e o mercado confirma essa virada.
De acordo com o relatório Decaf Coffee Market Size, Share, and Growth Analysis, da SkyQuest, empresa norte-americana especializada em inteligência de mercado e inovação, o segmento movimentou US$ 21,3 bilhões em 2024 e pode alcançar US$ 30,29 bilhões até 2033. A pesquisa aponta também uma projeção de crescimento anual composta (CAGR) da categoria de 7,43% nos próximos sete anos. Mais do que uma tendência de consumo, o movimento sinaliza uma mudança cultural na forma de consumir café.
A inflexão ocorre a partir de 2020, com a pandemia de Covid-19, explica a pesquisa. Confinadas em casa, lidando com crises de ansiedade, milhões de pessoas começaram a rever o que colocavam no prato e na xícara.
Para desacelerar
Antes de tudo, é preciso dizer: a cafeína está longe de ser vilã. Consumida para melhorar foco, concentração e desempenho físico, ela também impulsiona o mercado de energéticos.
“A cafeína é um termogênico que melhora o desempenho esportivo”, afirma a nutricionista Fernanda Timerman, idealizadora do Instituto Nutrição Comportamental. “Ela se torna um problema quando é utilizada como muleta para pessoas que têm privação de sono ou que tomam muito café para inibir a fome”, explica.
De fato, muitos consumidores que evitam cafeína tem algum tipo de restrição à saúde, como alta sensibilidade à substância ou questões clínicas associadas ao seu consumo, como insônia, ansiedade ou problemas cardíacos.
Estudos com adultos da América do Norte e da Europa mostram que a resposta à cafeína varia entre indivíduos – 40% a 50% dos europeus, por exemplo, metabolizam a substância mais lentamente. Além disso, estimativas globais apontam que entre 15% e 20% dos adultos apresentam algum transtorno de ansiedade – grupo no qual a cafeína pode intensificar sintomas.
Segundo o relatório da SkyQuest, a Geração Z vem ampliando esse grupo ao consumir versões descafeinadas ou com baixo teor de cafeína em preparos como cold brew e blends, com foco na qualidade sensorial.
No outro extremo, cresce o interesse das pessoas por “desacelerar”. Dados do relatório Spring 2024 NCDT, produzido anualmente pela National Coffee Association (NCA) – entidade que representa o setor cafeeiro dos Estados Unidos – mostram que o consumo de descafeinado aumentou cerca de 20% entre norte-americanos acima de 40 anos e 11% entre aqueles com mais de 60 anos.
A mudança também ganha força com a atuação de nomes influentes do setor. O barista britânico James Hoffmann, campeão mundial e fundador da Square Mile Coffee Roasters, produziu conteúdo nas redes para combater a má reputação dos descafeinados modernos. Nos Estados Unidos, Weihong Zhang venceu em 2024 o US Brewers Cup com um typica descafeinado da Colômbia – que depois entrou no portfólio de sua torrefação, a BlendIn Coffee Club, em Houston.
O descafeinado, portanto, vem deixando de ser um produto de nicho e passa a ganhar escala também como tendência.
E no Brasil?
No Brasil, o segmento de descafeinados pode crescer a uma taxa média anual (CAGR) de 5,2% entre 2026 e 2033, de acordo com relatório da consultoria norte-americana Grand View Research. A projeção da consultoria é a de que o mercado brasileiro movimente US$ 164,1 milhões no período.
A pioneira no processo de descafeinação no Brasil foi a Cocam Cia. de Café Solúvel e Derivados, em Catanduva (SP). Fundada em 1970, a empresa adota o método tradicional, com uso de solventes químicos. Há 56 anos, fornece café descafeinado para marcas no Brasil e no exterior.
Com opção de café descafeinado no portfólio desde 2013, a Orfeu Cafés Especiais optou pelo método de descafeinação Swiss Water Process, que usa apenas água para a retirada da substância e cuja única fábrica fica na província de British Columbia, no Canadá. “A gente separa um café de nossa produção, envia o café para o Canadá e eles fazem o processo de descafeinação, com retorno do mesmo café sem a cafeína para nós. É um processo de quase um semestre”, diz Lucas Franco, agrônomo e gerente responsável pelo Complexo Sertãozinho, que reúne as fazendas da Orfeu.
Franco se alinha ao que as pesquisas apontam. “A gente percebe uma evolução no consumo de café
especial, de um café com novas experiências entre os jovens, que diminuíram o consumo de álcool e
investiram nas coffee parties, que servem drinques com café. Acho que tudo isso, e o fato de que há
aqueles que não têm costume de consumir cafeína ou sentem alguma alteração, acaba atraindo o consumo de descafeinados, que se tornou mais comum”, detalha ele. Em 2025, a venda de café descafeinado da Orfeu foi proporcional à venda de café da linha clássica da marca.
“Observamos um crescimento gradual e consistente no consumo de cafés descafeinados no Brasil”, concorda Denise Ritur, gerente de marketing da Melitta. “Ainda que a categoria represente uma parcela pequena do total de café torrado e moído quando comparada aos demais países, trata-se de um segmento com crescimento de dois dígitos nos últimos anos”, afirma. A Melitta, inclusive, acaba de lançar um café descafeinado – o segundo da marca – para compor sua linha Tradicional.
De olho no crescimento desse mercado consumidor e nas vantagens estratégicas de operar no Brasil, o grupo mexicano Descamex (Descafeinadores Mexicanos) anunciou, em 2025, a formalização de uma joint venture com o Grupo ECOM, por meio da subsidiária Eisa, para investir em uma fábrica no Brasil. A unidade brasileira é a segunda da empresa – cuja matriz fica na cidade de Córdoba, em Veracruz, no México – e está instalada em Sooretama (ES), no centro da maior zona produtora de café conilon do país.
A nova fábrica também é a primeira no Brasil a extrair cafeína exclusivamente com água por meio do protocolo Mountain Water. A operação foi concluída em setembro do ano passado e, no Brasil, passou a se chamar DM Descafeinadores do Brasil.
“Queremos apostar no mercado consumidor do Brasil, mas nossa segunda fábrica foi pensada para atender, também, todos os nossos clientes no mundo”, afirma o diretor comercial da ECOM, Carlos Santana. Ele diz que a escolha pelo Espírito Santo levou em conta fatores estruturais e regionais. “Além de questões com custo de logística e acesso a grandes volumes de café por estar mais próximo de fazendas, os empresários capixabas nos convenceram de que esse era o melhor lugar para receber nossa operação.”
Segundo Santana, a proximidade com o porto de Vitória facilita o escoamento para o exterior e reduz custos logísticos. “Imagine o seguinte cenário: uma torrefação japonesa compra café brasileiro e precisa receber o lote descafeinado. No passado, esse container precisava viajar longas distâncias”, relembra Santana. “Além de economizar tempo, nossa unidade aqui vai diminuir os custos logísticos e de impostos para o cliente final”, explica.
A fábrica tem cerca de 9,5 mil m2, seis pavimentos industriais e, até a conclusão desta edição, operava em caráter de teste. Para 2026, a expectativa é descafeinar cerca de 250 mil sacas de café – 80% desta produção, destinada ao mercado internacional. Segundo a empresa, a unidade brasileira deve atender marcas como Nespresso e 3corações. A DM Descafeinadores do Brasil ainda dá destino à cafeína retirada dos grãos, que é vendida a indústrias de alimentação, bebidas, cosméticos e produtos farmacêuticos.
O que antes era visto como concessão virou escolha. O descafeinado cresce, apoiado por tecnologia e por um consumidor mais atento ao próprio ritmo. A cafeína pode sair de cena, e o mercado, oferecer mais formas de consumir café.









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