Barista

Juliana Morgado defende o Brasil no mundial de filtrado: “Vão ver como é o nosso café e a força das mulheres”

Única mulher entre os seis finalistas da competição nacional, a barista de Brasília se prepara para o mundial da categoria na Bélgica

“Acordo todo dia de manhã e vou olhar minha prateleira pra ver se é verdade”, conta Juliana Morgado à Espresso sobre sua vitória no Campeonato Brasileiro de Brewers no último dia 26.

Única mulher entre os seis finalistas, a barista de Brasília segue em ritmo de treinamento para representar o Brasil no mundial, que acontece de 25 a 27 de junho em Bruxelas, na Bélgica. 

Em entrevista exclusiva, Juliana relembra sua trajetória no café, reflete sobre os desafios da profissão e comenta os planos para o futuro e as expectativas para o mundial. “Quero mostrar que o café brasileiro é mais do que castanha, caramelo, chocolate e torra escura para espresso”. 

Espresso: Conte um pouco sobre sua trajetória no café – experiências, conquistas e desafios.

Juliana: Faz oito anos que estou no café, comecei como barista. Antes, trabalhei sete anos como assessora de imprensa. Saí de um trabalho que estava me fazendo mal, e, como tinha um curso de barista, comecei a trabalhar com isso e me apaixonei. Igual à Alice, caí no buraco do coelho, no mundo do café especial, e a curiosidade foi me levando. Como sempre fui estudiosa, acho natural querer ampliar conhecimento. Acho que foi isso o que fez minha carreira deslanchar e é o que eu digo a todos os baristas com quem convivo: se você estuda, se dedica com compromisso e consistência, consegue melhorar a vida de ser barista. Meu grande desafio é o de todo mundo – ser barista e ter perspectiva de crescimento, não apenas ficar na cafeteria fazendo café. 

Trabalhei em cafeterias em Brasília. O café que usei no campeonato foi selecionado e torrado pelo Rodrigo, da Studio Grão, onde trabalhei quatro anos. Íamos atrás de lotes incríveis de produtores muito pequenos, ou, às vezes, um pouco maiores, mas com alguma saca maravilhosa difícil de vender  – ninguém quer pagar frete de uma saca só. Mas a gente ia lá, para mostrar que o Brasil tem jóias a serem lapidadas.

E: O que significa ganhar o título de Campeã Brasileira de Brewers?

J: Foi incrível. Acordo toda manhã e vou olhar minha prateleira pra ver se é verdade. Bato no troféu e sigo o dia. Eu sabia que eu iria bem porque estava me esforçando muito e tinha um café realmente muito bom. Já fui com o pensamento de que iria ganhar, porque é competição e você tem que dar o seu melhor. Quando anunciaram meu nome, caí de joelhos, porque é a chancela de todo o meu esforço, de oito anos de barismo, de anos ensinando. Sou instrutora, consultora, ajudo a abrir cafeterias. Trabalho como barista parceira da 3corações visitando lugares com cafés de todos os tipos. Amo não só cafés especiais, por isso fiquei em êxtase. Acredito que consegui representá-lo e, principalmente, as mulheres do café, uma área muito dominada por homens e onde precisamos ganhar espaço. E o mundial é o nosso espaço, o do Brasil, para dizermos que temos cafés incríveis também.

E: De que maneira ganhar este campeonato impacta sua vida profissional?  

J: Agora ela virou de cabeça pra baixo. Com essa visibilidade, consigo colocar meus projetos pra frente. Sempre quis fazer cursos filantrópicos para mulheres e trans em situação de risco. Tem muita gente querendo me ajudar. Mas, antes, quero levar o café brasileiro pra fora e mostrar que somos mais do que castanha, caramelo, chocolate e torra escura para espresso. Porque nas cafeterias lá fora, o Brasil está sempre nessa média. Temos cafés incríveis, florais, frutados, delicados, feitos com esforço e por mãos que querem oferecer uma xícara incrível, uma experiência. É isso quero mostrar. 

E: Como você pretende se preparar para o Mundial e quais são as expectativas em relação a essa disputa?

J: Estou em fase de treinamento, fechando meu discurso em inglês, decidindo se o café vai ser o mesmo ou não. Estamos buscando patrocínio, porque só tenho a minha ida garantida, mas preciso dos meus coachs, de equipamentos e utensílios para treinar e me apresentar. Só o filtro de papel que uso custa R$ 10. Nos denominamos uma seleção brasileira de barismo, pois não vou representar uma marca, mas o Brasil. Então, aceitamos ajuda de que quem tiver interesse em ajudar a marca Brasil. Minha expectativa é de que vamos ganhar, e vocês vão ver como é o café do Brasil e a força das mulheres.

E: Quais os planos para o futuro? Pretende competir novamente?

J: Claro. Esse ano vou ao Campeonato Brasileiro de Barista e, ano que vem, ao de brewers de novo. E de barista de novo. E mundial de novo – se der. Gosto disso.

TEXTO Redação • FOTO Divulgação

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