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Serra de Baturité (CE) conquista IG para o café
Reconhecimento, na modalidade indicação de procedência (IP), reforça tradição cafeeira centenária do maciço cearense e destaca modelo de produção sombreada em sistema agroflorestal
O café da Serra de Baturité, no Ceará, acaba de conquistar o registro de Indicação Geográfica (IG), na modalidade Indicação de Procedência (IP).
O anúncio foi feito em 3 de março, dias depois da conquista do mesmo registro pela região cafeeira da Chapada de Minas. Com isso, o Brasil passa a somar 23 Indicações Geográficas reconhecidas para cafés.
A cerca de 100 km de Fortaleza, e encravada em uma área preservada de 32 mil hectares com remanescentes de Mata Atlântica, a Serra de Baturité — também conhecida como Maciço de Baturité — situa-se no centro-norte do Ceará e abriga 13 municípios (veja abaixo) que agora fazem parte da delimitação oficial da IG.
A região, montanhosa e de clima ameno e úmido, cultiva arábica desde o século XIX. Desde sua introdução no estado, o café impulsionou o desenvolvimento de cidades como Baturité, Guaramiranga e Pacoti.
Segundo o historiador Leonardo Norberto de Morais, em artigo sobre a região para o periódico Centúrias, políticas intervencionistas implementadas pelo extinto Instituto Brasileiro do Café (IBC) nas décadas de 1960 e 1970 tiveram impactos negativos sobre o cultivo tradicional do grão na Serra de Baturité.
Após esse período de retração, a produção foi gradualmente reestruturada com foco na sustentabilidade. Hoje, a região é conhecida pelo cultivo de café sombreado, em um modelo que integra lavoura e floresta.
Para receber o selo Café da Serra de Baturité, o café arábica deve ser cultivado em sistema agroflorestal e colhido de forma manual e seletiva.
Conheça os municípios da IP Serra de Baturité
Acarape, Aracoiaba, Aratuba, Barreira, Baturité, Capistrano, Guaramiranga, Itapiúna, Mulungu, Ocara, Pacoti, Palmácia e Redenção.
Saiba a história do café na Serra de Baturité
O café arábica chegou à Serra de Baturité em 1822. A boa adaptação do cultivo à região montanhosa, de clima ameno e úmido, favoreceu a fixação dos primeiros cafeicultores.
Nas primeiras décadas, o cultivo se expandiu e era comum que propriedades cafeeiras mantivessem engenhos de farinha de mandioca e açúcar.
No auge da produção serrana, entre as décadas de 1840 e 1910, os ganhos com a exportação do grão muitas vezes superaram os obtidos com o algodão, outro produto relevante do sertão cearense.
A partir dos anos 1870, a Estrada de Ferro de Baturité passou a escoar o café das serras para Fortaleza, de onde seguia para exportação à Europa.
O esgotamento dos solos, o cultivo a pleno sol e o desmatamento levaram à retração da cafeicultura local, posteriormente retomada com o cultivo sob sombra de árvores.
Essa prática — com plantio consorciado de frutíferas e outras culturas de subsistência — manteve a tradição cafeeira na Serra de Baturité até as intervenções do IBC, nas décadas de 1960 e 1970.
As políticas de modernização da época previam a erradicação de cafezais considerados “improdutivos” e incentivavam a diversificação agrícola e a renovação das lavouras, com foco no aumento da produtividade.
Fonte: Leonardo Norberto de Morais, “A partir do café, para além dele”, Centúrias, n. 1. v. 3, 2023.






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