Café & Preparos

O papel social dos primeiros cafés europeus

Por Cristiana Couto

Mais do que uma bebida, o café ajudou a moldar espaços sociais, rotinas urbanas e formas de convivência que atravessaram séculos e continentes. Foi, assim, uma instituição social que espelhou transformações culturais, políticas e intelectuais na modernidade ocidental.

O café, como instituição social, foi inventado pelos otomanos. O historiador William H. Ukers, em All About Coffee (1922), cita Jules Michelet como alguém que teria descrito o advento do café como “uma auspiciosa revolução dos tempos, o grande evento que criou novos costumes, e até modificou o temperamento humano”. Ainda que a origem exata dessa afirmação não seja clara nas obras de Michelet, ela simboliza a percepção do café como agente cultural transformador.

O consumo público da bebida na Europa teve início em meados do século XVII. Inicialmente visto como produto exótico, ao lado do chá e do chocolate, era restrito à elite e valorizado por suas propriedades terapêuticas. O grão vinha da península arábica, embarcado no porto de Mocha, no Iêmen, e chegava às boticas europeias por Veneza. O primeiro carregamento de café desembarcou ali em 1615, marco da entrada da rubiácea na Europa cristã.

O primeiro espaço público voltado exclusivamente à bebida surgiu em 1650, em Oxford, na Inglaterra. Segundo o historiador Brian Cowan, o café foi fundado por Jacob, possivelmente judeu oriundo do Império Otomano ou do Levante. Sua localização próxima à universidade atraiu acadêmicos e estudantes. Em 1652, foi aberta em Londres a primeira coffeehouse da capital, por Pasqua Rosée, armênio a serviço de um mercador inglês. O estabelecimento logo virou modelo para outros empreendimentos. No início do século XIX, Londres contava com cerca de dois mil cafés — número que cairia com o avanço da cultura do chá nas colônias britânicas.

Em Paris, o Café Procope foi inaugurado em 1686 pelo siciliano Procopio dei Coltelli e tornou-se símbolo da cultura do café. Frequentado por iluministas como Voltaire e Diderot, e por Benjamin Franklin durante a Revolução Americana, segue em funcionamento. Em 1720, Paris já somava cerca de 380 cafés.

Roma preserva casas históricas como o Greco e o Aragno; Nápoles, o Gambrinus; Florença, o Gilli e o Giubbe Rosse; Pádua, o Pedrocchi; e Trieste, o Tommaseo. Este, inaugurado como Caffè della Venezia Trionfante por Floriano Francesconi, logo mudou de nome e foi frequentado por personalidades como Casanova, Goethe, Proust e Rousseau.

Nas regiões germânicas, os cafés abriram mais tarde: Viena, em 1685; Berlim, em 1721. Muitos tinham forte influência otomana, com garçons em trajes orientais e cardápios com iguarias como os sorbets turcos. Esse exotismo fazia parte do apelo dos cafés, que se diferenciavam das tabernas e cervejarias ao oferecer um espaço de sociabilidade refinada, debate político e intelectualidade emergente.

Nos séculos XVIII e XIX, os cafés espalharam-se pela Europa e assumiram perfis distintos segundo a cultura local. No século XIX, os cafés vienenses consolidaram-se como centros de reflexão literária e filosófica. Autores como Zweig, Freud, Kraus e Trotsky frequentaram locais como o Café Central e o Landtmann. Segundo Harold Segel, esses espaços foram centrais para a vida intelectual austríaca e influenciaram outras capitais no século XX.

A ascensão do nazismo e a influência americana no pós-guerra transformaram significativamente os cafés europeus no século XX, assim como o surgimento dos bares de café espresso e os cibercafés. Essas transformações, inclusive, foram avaliadas de diferentes maneiras.

A associação entre cafés, sobretudo em Londres e Paris no século XVII, e a cultura da notícia levou estudiosos a vê-los como berço de uma nova política moderna. Nesse modelo, que contrapunha o absolutismo do antigo regime, a opinião pública ganhou papel central como força crítica capaz de influenciar decisões políticas e moldar sociedades.

Essa leitura foi consagrada por Jürgen Habermas, em The Structural Transformation of the Public Sphere (1962). Para ele, as coffeehouses eram espaços igualitários, fora do controle estatal, onde cidadãos livres debatiam racionalmente temas coletivos e formavam a opinião pública. Em sua visão, os cafés seriam o coração da chamada esfera pública burguesa, e sua consolidação, a parte essencial da transição entre o absolutismo feudal e as democracias modernas.

A partir dos anos 2000, essa perspectiva passou a ser revisada por autores como Brian Cowan, em The Social Life of Coffee (2005). Para Cowan, a leitura habermasiana está ligada a uma narrativa marxista de progresso histórico, segundo a qual haveria uma evolução linear do feudalismo ao capitalismo, com o surgimento de espaços públicos emancipatórios, idealizando o papel dos cafés e obscurecendo seu real funcionamento social e político. Nesse sentido, os cafés não foram espaços onde as distinções sociais eram suspensas em nome de uma racionalidade iluminista, mas nasceram da cultura dos virtuosi — colecionadores, acadêmicos e homens cultos — e atraíam a pequena burguesia não por desejo de emancipação, mas por prestígio. As discussões nesses espaços estavam imersas em redes comerciais, disputas partidárias e interesses econômicos. A circulação de impressos, objetos exóticos, panfletos políticos e notícias fazia parte de uma cultura urbana de consumo e curiosidade, voltada ao entretenimento erudito, e não necessariamente à formação de um foro racional público.

Pesquisadores como Markman Ellis, Joan Landes e Dena Goodman reforçam essa crítica, introduzindo aspectos como gênero, hierarquia e influência aristocrática.

Assim, a nova visão vê as coffeehouses como continuidade transformada do antigo regime, e não ruptura. Eram espaços híbridos de sociabilidade e consumo que, mais tarde, dariam origem a instituições modernas como o restaurante.

Essa interpretação também corrige a ideia de que as coffeehouses entraram em declínio após 1930. Estudos como os de Ellis e Jonathan Morris mostram que os cafés se transformaram — tornando-se mais públicos, acessíveis e adaptados aos novos hábitos urbanos, sem perder sua função social como espaços de encontro, leitura, lazer e debate.

Cristiana Couto é jornalista, historiadora e doutora em História da Ciência. É autora, entre outros, de Arte de Cozinha – Alimentação e Dietética em Portugal e no Brasil (séculos XVII-XIX).

TEXTO Cristiana Couto • ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

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