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Coluna Barística por Mariana Proença

Experiências com café e sobre a profissão barista

Sorri quando a dor te procurar

Clareou. Abri os olhos. Silêncio absoluto. Se eu não quisesse levantar, tudo bem. O mundo lá fora está dormente. Mas eu preciso sair da cama. O que eu tenho que fazer hoje mesmo? Ah, não posso sair de casa. Não devo. Lembro imediatamente. A mente demora todos os dias alguns minutos para me avisar e alertar. Bate uma tristeza.

Penso em alguém que encontraria dali a alguns dias no trabalho. Meu calendário do celular ainda está com os eventos agendados, aqueles que aconteceriam. Ainda marca meus dias de Pilates, que faço há onze anos depois de um acidente, lembrete do meu rodízio semanal do carro e das idas à casa da minha tia e da minha mãe, e das contas a pagar. Estas ainda continuam firmes e fortes. Daí eu me levanto. Afinal, preciso fazer algo por mim e pelos outros.

Começo a fazer o meu café. Escolho o método, esquento a água, ou melhor, fervo a água. Vou moer o café, daí alguém manda uma mensagem. Entre uma notícia falsa e outra nos grupos digitais, vem uma mensagem linda daquela amiga que você ama e que não viu mesmo antes da pandemia, mas que agora ficou mais longe de ver. Daí o coração parece que aperta mais. Vem o áudio da minha mãe incluindo alguns itens na lista do supermercado. O café não fica tão bom como no dia anterior. Acho que demorei para jogar a água, não mexi e talvez tenha esquecido alguma etapa. Mas tá bom. Aliás, está ótimo.

Resgatei meu caderno de anotações. Foi importante. Jornalista tem muito bloquinho. Mas agora este é de casa, para assuntos residenciais e não profissionais. Tem a lista do supermercado, da feira em frente de casa e dos cafés que ganhei dos amigos ou que preciso comprar. Tem também algumas frases e ideias de trabalho. Opa, mas não eram só anotações de casa? Poxa, mas não estou conseguindo separar. Tudo bem. Nunca consegui.

Desenho uma ampulheta no caderno. Sou bem ruim de desenho. Na infância era daquelas que escondia o rabisco da professora. Mas tento representar o tempo. No momento em que escrevo, estou há 58 dias em casa. Saí, é verdade, algumas vezes, para ir à farmácia, para levar algo para a minha mãe, e só. Antes não tivesse precisado sair. Andar em São Paulo neste momento é estranho.

Como tem gente que não está nem aí? Disfarçam bem, eu acho. Dirigindo fico olhando todas as lojas fechadas. Aperto no coração. Penso nos meus colegas donos de cafeterias. Vem o rostinho de vários deles na minha cabeça.

Troco olhares por cima da máscara com um pedestre. Parecemos até falar com as expressões. Que situação, né? De repente uma buzina. Um grito: “É dona da rua?”. Lembro que estou dirigindo em São Paulo. Sempre tem um delicado para te avisar. Olho pro lado, o carro dele todo destruído, sem espelho lateral, sem cinto de segurança. Ele quer brigar. Porém, encontrou a pessoa errada. Respiro e olho pra frente com uma risada no canto da boca. Que raiva esse senhor guarda no coração. Ele está sem máscara. Tem mais de 60 anos. O farol abriu. Deixo ele ir. Está com pressa, deve ser para chegar em casa logo. E dou risada alto.

Continuo andando, paro na farmácia, pego o tubo de álcool gel, desço. Esqueço a carteira, volto. Pego a chave do carro, esqueço o álcool, volto. O nariz coça por dentro da máscara. Não posso mexer. Esqueci a lista no carro. Deixa pra lá. Vou tentar lembrar. Pago e volto pro carro. Mando áudio de máscara. Fica horrível o som.

Um senhor bate na janela do carro. Me pede para comprar uma carne no açougue. Caramba, estou sem dinheiro. Tenho cartão. Penso. Tá, é só atravessar a rua. Pode ser frango? Inteiro? Quanta informação passa na minha cabeça naquele momento. Entrego o frango para o moço. Vou pagar. Quanto é? Deus te abençoe. Obrigada. Entro no carro. Passo álcool. Que calor essa máscara. Imagina quem tem que usar isso por muitas horas? 

Lembro dos amigos médicos e enfermeiros. Volto pra casa. Tiro o sapato, tiro a roupa, lavo a mão, tiro a máscara. Outros rituais. Ufa! Que vontade de tomar um café! Tomo banho, penso na agenda. Caramba, tem uma live que eu queria ver. Perdi. Será que salvaram? Mas queria ter interagido. Depois mando mensagem. Não deu pra ver. Mas me avisa da próxima? Escureceu. O sol de pôs. Ele é rosa e laranja alguns dias. Todo mundo postou. Oi, querido céu. Tem estrelas agora mais aparentes. Passarinhos cantam. Dá pra ouvir o som do bueiro batendo quando passa um carro. O sino da igreja. Um cachorro ao longe. O cheiro do arroz da vizinha. Vou fazer outro café. Vou fazer quarenta. Nunca pensei em viver isso. Vou gritar. Não. Vou pedir. Não. Vou me acalmar. Tudo mudou num estalo. Está todo mundo com sentimentos misturados. Vou sorrir. Melhor. Vou sorrir. Isso. Respira. Sorri, quando a dor te procurar.

(Texto originalmente publicado na edição impressa da Revista Espresso referente aos meses junho, julho e agosto de 2020 – única publicação brasileira especializada em café. Receba em casa. Para saber como assinar, clique aqui).

TEXTO Mariana Proença • ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

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