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Coluna Barística por Mariana Proença

Experiências com café e sobre a profissão barista

Mundo paralelo

 

Para aqueles que estão atrás do balcão ou que trabalham na área do café, a primeira pergunta, a mais comum, dos conhecidos é: “Qual é o melhor café do mundo?” A segunda pergunta é: “Já tomou o café daquele gato selvagem?”. E o do pássaro? É bom?”. Essas são algumas dúvidas que ouvimos quase que diariamente quando somos abordados por apreciadores de café. Perguntas que mudam ao longo dos anos, mas que se baseiam muito na curiosidade do que já experimentamos, do que mais gostamos, acompanhada também da frase: “Nossa! Deve ser muito bom trabalhar com café”. Realmente esse fruto que vira grão, depois pó e líquido é encantador. Trabalhar com ele dá um enorme prazer. Porém, costumo dizer que “café é um mundo paralelo”. Desde que comecei nesta área, foram tantos aprendizados, termos novos, sabores diferentes, entendimentos sobre o funcionamento de todo o setor, que acredito mesmo que essa especificidade possa ser comparada a um mundo à parte.

Aos apreciadores comuns, explicarei que, como em qualquer área em que nos especializamos, passamos a falar uma língua própria, a usar um vocabulário específico, a conviver com pessoas do meio e a entrar cada vez mais profundo nela. De repente o buraco fica tão lá embaixo que é preciso rever. Eu me peguei dia desses pensando nisso após analisar os resultados de pesquisas recentes que mostram mais consumidores interessados no mundo do café de qualidade, das origens, das variedades, dos métodos de preparo, do moedor, do café bom.

Daí o grande desafio – a linguagem. Será que estamos sabendo atrair esses consumidores? Que vocabulário precisamos usar para educar mais gente? Quais experiências trazem mais apreciadores para tomar novos cafés?

Esse é o grande desafio! Cada vez surgem mais cursos para leigos que estão criando maneiras diversas de atrair o público. O objetivo é que a pessoa aprenda, mas que não só ela guarde o certificado no armário e continue com seu antigo hábito, mas também, que a partir deste aprendizado inicial, possa começar uma mudança no consumo do café. Vejam que responsabilidade!

Cada um encontra dentro da sua rotina aquilo que mais lhe convém, mas percebe-se — pelos dados de crescimento do nosso mercado — que mais pessoas vêm alterando a forma de se relacionar com o café. O prazer está suplantando cada vez mais o mero “tomar para acordar”.

Por isso a grande responsabilidade dos educadores na área de café pelo Brasil. Somos responsáveis por pulverizar a informação, por cativar as pessoas para o “nosso mundo” para que ele se torne real para todos. Sabemos das barreiras de preço para a maior parte da população, sabemos também ainda da falta de conhecimento sobre os produtos, mas também sabemos do grande potencial que temos em nosso país. Não mudaremos o hábito de todos, não precisamos impor nada, mas, sim, cativar pelo aroma, pelo sabor, pela experiência, pela história, por aquilo que tocar mais cada pessoa.

Não existem regras, não existe ninguém igual ao outro, mas existe muita curiosidade. Pode ser muito clichê, mas é a pura verdade. Aproveite cada pontinho de dúvida de um amigo, de um conhecido, para explicar mais sobre café. Pode ser “bobo” ou muito carregado de conceitos equivocados, mas tente usar palavras fáceis, começar pelo mais simples e evitar impor regras do nosso mundo paralelo. Aos poucos ele vai entender. Ele vai provar, vai dizer que está fraco, vai fazer muitos questionamentos, mas isso é o mais interessante: há muita gente ávida por informação. Vamos aproveitar esse momento. Sair do nosso mundo paralelo e pensar que ainda há muito para conquistar. Esse crescimento só vai ajudar toda a nossa cadeia, do produtor ao barista.

(Texto originalmente publicado na edição impressa da Revista Espresso referente aos meses março, abril e maio de 2018 – única publicação brasileira especializada em café. Receba em casa. Para saber como assinar, clique aqui).

TEXTO Mariana Proença • ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

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