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Aftertaste por Pedro Cirne

Crônicas sobre a vida, o universo e o tudo mais

Como deve ser difícil ser muito chato

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Sei lá. Acho que todo mundo é chato de vez em quando. (Eu, inclusive, óbvio). E, quando eu digo de vez em quando, não me refiro a uma vez a cada quatro anos, tipo Copa do Mundo. Digo no decorrer do dia mesmo. Às vezes escapa. Ninguém consegue ser legal em 100% do tempo. Nem mesmo o mocinho de Hollywood – pode reparar, ele sempre dá uma mancada uns vinte minutos antes de acabar o filme, só para se reabilitar logo depois.

Acho difícil aceitar que não somos legais o tempo todo, mas, levando-se em conta que somos humanos, até que dá para compreender. O que me espanta é: já reparou que tem gente que quer ser chata o tempo inteiro? Como se fosse um hobby, um esporte, uma missão? Ou mesmo uma profissão regiamente remunerada?

Pode reparar. Uma coisa é você não sorrir ao cumprimentar o vizinho (parto do ponto que todo mundo se cumprimenta). Mas outra, diferente, é você sair da sua vida, cruzar uma linha imaginária, só para encher o saco de outra pessoa. É frequente, não é?

Aí vão cinco exemplos aleatórios da vida real:

1 – Uma vez vi um colega recriminar outro: “Seu problema é que você ri demais!”. Oi? O problema dele é ser feliz? O sorriso incomoda? Sorrir é agredir?

2 – Na fila do banco: gente que puxa assunto para reclamar dizendo que os idosos têm prioridade. Poderia estar feliz por viver em uma sociedade em que se dá algum valor (para mim, não o suficiente) aos mais velhos, mas não. A pessoa só quer sair de onde está para espalhar o mau humor, difundir a rabugice. Uma espécie de missionário da chatice.

3 – Na internet: críticas a voluntários que defendem direitos de mulheres, índios, animais, etc. Ou seja, em vez de ajudar quem quer que seja, o sujeito critica quem está ajudando. É muito esforço para ser insuportavelmente chato!

4 – Religião/orientação sexual: quantas pessoas usam as redes sociais ou conversas coloquiais para criticar a fé ou a orientação sexual de outrem? “Você é X? Mas como, se Y é o correto?”. Ou, o que é a mesma coisa, para criticar a falta de religião de alguém: “Você é ateu? Não tem medo de arder no inferno? Vou te converter, nem que seja a última coisa que eu faça!”. Uma vez mais, é alguém rompendo a linha do respeito, de deixar a pessoa com a sua fé ou orientação sexual.

5 – Política: “Você é petista/tucano (ou petralha/coxinha)? Pois saiba que…” E aí começa uma série de platitudes, como se não vivêssemos em uma democracia. O “politizado” vai tentar converter o outro – normalmente, atacando-o, como se agressividade fosse sinônimo de argumentação civilizada.

Até poderia caber aqui gente que utiliza assentos reservados para grávidas ou idosos, o que vejo diariamente. Mas não acho que isso seja chatice, mas falta de educação, de civilidade e de altruísmo.

Eu sei, eu sei. Não há nada que possamos fazer contra eles. Mas me espanta o esforço que os chatos fazem para invadir a vida alheia. É que é muita dedicação, gente, muito esforço para sair julgando todo mundo. Estou arrependido de ter abordado esse tema. Acho que acordei meio chatinho hoje.

(Texto originalmente publicado na edição impressa da Revista Espresso – única publicação brasileira especializada em café. Receba em casa. Para saber como assinar, clique aqui).

TEXTO Pedro Cirne • ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

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