Coluna Café por Convidado Especial

Do campo à xícara, profissionais convidados refletem sobre o setor

Olhos para a China

O dragão despertou; ele está ávido por uma xícara de café para começar o dia. Assim têm sido as manhãs chinesas, à medida que o consumo cresce a um ritmo de dois dígitos. Essa aceleração levou esse mercado a uma posição de destaque no cenário internacional e fez com que se voltassem os olhos de toda a cadeia do café para a China.

Durante séculos, com forte cultura milenar e gigantesca população, a China fascina mentes ocidentais. Os primeiros relatos das antigas rotas comerciais já descreviam o imenso potencial do mercado chinês, mas, somente nas últimas décadas, sua impressionante ascensão econômica foi capaz de transformá-la, verdadeiramente, em um imenso canteiro de obras e na fábrica do mundo. Ao mesmo tempo, a vigorosa expansão do poder aquisitivo fez da China alvo prioritário para o desenvolvimento de novos negócios, sem deixar indiferente nenhum setor comercial. Em se tratando de café, a emergência chinesa tem causado alvoroço em produtores e amantes de café. Quais serão os desdobramentos e implicações no comércio mundial do grão?

Visto do Brasil, o desbravamento desse crescente mercado representaria possibilidades quase infinitas para o produto nacional. Sobretudo entre os produtores, sempre foi comum a crença de que bastava que os chineses “aprendessem” a tomar café para que, de forma mágica, os preços cotados em bolsa atingissem novos patamares.

Não obstante, uma análise mais criteriosa pode revelar outras nuances, pois a China desenvolve simultaneamente sua capacidade de produção. O grande pensador chinês Confúcio dizia “não aceitar nem rejeitar absolutamente nada, mas consultar sempre as circunstâncias”. Esse ensinamento encontra plena aplicação na elucidação desse complexo binômio café-china.

O longo caminho
Para ver em primeira mão essa face menos conhecida da China, é necessário certo apetite por aventuras. Famosa pelas vastas montanhas, natureza exuberante e particularmente pelos chás, a província de Yunnan, que literalmente significa lugar ao sul das nuvens, acaba de acrescentar a essa lista o café.

Essa província, a mais meridional do território Chinês, espalha-se por 400 mil quilômetros quadrados (o equivalente ao estado do Mato Grosso do Sul), desde o poderoso Rio Mekong até o sopé do Himalaia, nas fronteiras com Birmânia, Laos e Vietnã. Com altitude média de 2 mil metros, clima subtropical e latitude de 20º N, a região apresenta condições muito favoráveis ao cultivo da espécie arábica, condições estas, a rigor, bastante semelhantes àquelas encontradas na América Central. Por isso, a província de Yunnan responde, atualmente, por cerca de 98% de toda a produção de café chinesa.

Plantações chinesas têm altitude média de 2 mil metros e são favoráveis ao cultivo do arábica.

Contemplar as belas paisagens da região exige, contudo, uma longa jornada. A partir de Xangai são cinco horas de avião até a capital da província Kunming e mais um voo complementar de uma hora e meia até os principais centros produtores de café, ao redor das cidades de Pu’er e Linchang.

A cidade de Kunming, com meros 3 milhões de habitantes, um número modesto para padrões chineses, dispõe de infraestrutura invejável, incluindo um reluzente aeroporto, amplas autoestradas e algumas linhas de metrô.

Enfim, a chegada ao destino traz alívio aos pulmões, outrora assolados pela poluição da capital xangaiense. A primeira impressão dessa longínqua província pouco se encaixa no estereótipo da China construído pelos brasileiros. Habitada por mais de trinta minorias étnicas, Yunnan constitui um verdadeiro mosaico cultural, rico em fisionomias, tradições e costumes diversos. Ao longo da história, sucederam-se diversos períodos de afastamento do poder central constituídos pelas dinastias Han, que imprimiram muitas características particulares à região. Credita-se a missionários franceses a introdução do café no final do século XIX.

Cafezais de Yunnan
É difícil conter a empolgação ao avistar ao longe as primeiras plantações de café, que mal se distinguem em meio às demais culturas tropicais, como a de cana-de-açúcar ou a borracha. O acesso a esses cafezais se dá através de estradas que serpenteiam o relevo escarpado – por vezes estreitas, por vezes sem pavimento, ou ainda parcialmente interrompidas pelos deslizamentos de encosta.

Assim como as estradas, as condições de vida mais precárias da população local são demonstração inequívoca de que a prosperidade chinesa ainda não foi capaz de alcançar os cantos mais remotos do país.

Estamos em época de colheita. As cerejas tingem de vermelho o tom viçoso da vegetação que se descortina. Diante dos olhos, cafeeiros de porte baixo (principalmente da variedade catimor), chamam atenção pela boa produtividade e total ausência de doenças corriqueiras no Brasil, como a ferrugem.

Comparados a grande parte dos cafezais brasileiros, milimetricamente alinhados e com rígido controle de plantas invasoras, os cafeeiros locais, que crescem rodeados por mato espesso e muitas vezes consorciados com outras plantas, causam certo espanto pela desordem.

O terreno íngreme impede qualquer tipo de mecanização, por isso a colheita se realiza exclusivamente pelas mãos de camponeses que habitam os vilarejos salpicados pela região. São relativamente poucas pessoas trabalhando nas plantações de café. Mesmo os chineses reclamam de escassez de mão de obra para o trabalho no campo e do desinteresse das gerações mais jovens.

Não é tarefa fácil compreender a divisão das áreas de produção e as relações de trabalho a partir de uma lógica ocidental. Mas é fato que, ao final do dia, um verdadeiro enxame de motocicletas surge de todas as partes. Desafiando todas as leis do equilíbrio, morro acima, carregadas com três, quatro, até cinco “medidas” de café cereja, elas se dirigem às várias estações de beneficiamento espalhadas pela região. Essas estações são administradas por empresas ou investidores privados, em parceria com o governo local, outra vez em um modelo de negócios próprio, que não obedece à lógica ocidental da propriedade privada.

Embora rudimentares, essas estações possuem instalações completas para processamento do café. Pequenos pátios de cimento, terreiros suspensos, despolpador, tanques de fermentação e uma particularidade local: compartimentos de secagem (tais quais um grande forno), cuja fonte de energia é o carvão. Em geral a capacidade de processamento atende a volumes não muito grandes.

Grãos chegam ao terreiro de cimento em uma das áreas de benefício.

Uma equipe que vive em acomodações no próprio local se encarrega das operações de pós-colheita, conduzidas em ritmo acelerado e somente interrompidas para tomar um… chazinho… ou infusões com outras ervas nativas. Nas monumentais montanhas de Yunnan, é impossível encontrar pessoas tomando café em um raio de vários quilômetros, sinal de que esse cultivo ainda não se enraizou totalmente na cultura local.

Teimosos, os últimos raios de sol se extinguem no céu de Yunnan, oferecendo um espetáculo memorável mesmo aos observadores mais desatentos. Sob o entardecer, o parque cafeeiro dessa província, com várias lavouras em formação, deixa prenunciar o crescimento vigoroso da produção chinesa nos próximos anos, ainda que alguns limites sejam impostos pela impossibilidade de mecanização e pela concorrência de terras disponíveis com outras culturas agrícolas. Tanto que grandes multinacionais do ramo do café, como Starbucks e Nestlé, vêm investindo consideravelmente na região.

De volta ao dragão
O incremento na produção encontrará seguramente bom respaldo no mercado doméstico, já que a China também experimenta um “boom” no consumo, portado pela maior disponibilidade de renda, pela urbanização e pela ocidentalização do estilo de vida. Essa trajetória ascendente guarda semelhanças com o quadro observado anteriormente em outros países asiáticos, a exemplo do Japão e da Coreia do Sul, mas é turbinada por velocidades chinesas.

As cafeterias se multiplicam nas principais cidades e começam a ganhar maior capilaridade pelo país. Além das grandes redes internacionais que esperam que a China seja o maior mercado consumidor em um horizonte de poucos anos, uma infinidade de “genéricos” chineses não deixa dúvidas sobre a capacidade inventiva local.

Por outro lado, não custa lembrar que o mercado chinês ainda é composto, em mais de 90%, de café solúvel de baixa qualidade e apresenta baixos índices de consumo per capita, inferiores a 100 g por habitante, cerca de 6 a 7 xícaras ao ano. Face aos mais de 4 kg encontrados em mercados maduros como EUA, Europa e inclusive o Brasil, esse número traz a dimensão da reserva de mercado que se esconde atrás da muralha.

Em seu eterno yin-yang, a China revela grandes oportunidades. A qualidade não parece ser um objetivo imediato, apenas iniciativas pontuais despontam nesse sentido, já que o primeiro desafio é responder ao aumento no volume.  No entanto, a combinação de terroir propício e intensificação dos investimentos estrangeiros habilita a China a considerar outro posicionamento em longo prazo.

Segundo uma antiga lenda chinesa, os animais se movem pelo oceano, mas são incapazes de produzir ondas. O dragão, por sua vez, quando se move, pode afetar as marés. E é este dragão que despertou.

*Allan Botrel é consultor de cafés e teve sua viagem para a China custeada pelo projeto Brazil. The Coffee Nation.

(Texto originalmente publicado na edição impressa da Revista Espresso – única publicação brasileira especializada em café. Receba em casa. Para saber como assinar, clique aqui)

TEXTO Allan Botrel • FOTO Allan Botrel

O melhor do café são as pessoas

Há um tempo eu percebi que o café é mais que uma bebida. Há um tempo também eu falo que o melhor do café são as pessoas. Essas percepções vêm de muitos momentos que passei em companhia desta bebida e de todos com quem eu de alguma forma a compartilhei.

Perdi a conta de quantas pessoas conheci, e da diversidade das situações que vivenciei. Do lazer ao profissional, tenho sempre uma boa recordação, um sentimento bom pela experiência que me agrega. O aprendizado é constante, as pessoas são interessantes, e os cafés não ficam por menos. Me desculpem aqueles que não apreciam a bebida, mas a minha vida não seria a mesma se o café não fosse o protagonista. Ao café toda a minha reverência.

Da fazenda à cafeteria, é sempre bom conhecer gente envolvida neste ramo, ou que compartilha deste hábito. Aprendo, me motivo, me divirto e observo muito. Acho interessante o quanto as reuniões de negócio ficam mais leves diante da xícara, ou o quanto os amigos se sentem mais confortáveis ao compartilharem este ritual. Me remete também aos mais solitários em um mundo particular. Com o café em punho nem parecem tão distantes. Lendo, desenhando, ouvindo música, conversando bobagens do dia a dia, ou mesmo algo importante, o café é bem-vindo a todos os tipos de situação.

Destaco ainda o quanto os produtores, ou aqueles que ajudam a cuidar da terra, da planta, do beneficiamento, da torra, aos que preparam e servem, expressam com paixão o que fazem. Na maioria das vezes de forma muito simples, mas com muito amor pela sua missão. A essas pessoas, todo meu respeito e admiração.

Isto me remete a uma visita que fiz recentemente a uma fazenda do Sul de Minas, a qual o proprietário tratava como um verdadeiro jardim. O esmero, o cuidado, o amor por aquele trabalho estavam vivos em seus olhos. O que me impressionou foi como este sentimento estava presente em todas as etapas do processo, ao qual o próprio, com muita gentileza, me apresentou. Posso dizer que este sentimento, da terra, do cultivo, está presente no sabor do seu café, que chega à xícara em sua cafeteria no Rio de Janeiro, que eu também tive o privilégio de conhecer.

A emoção não parou por aí, pois o que me surpreendeu foi perceber que o sentimento não estava restrito à família, mas também aos seus colaboradores. Particularmente pelo Sr Niltinho, que com muito gosto nos guiou no cafezal, onde dedica a sua vida aos talhões.

O café conota a bons momentos, a alegrias e bons sentimentos. Remete a cuidado e memórias de afeto. O convite pra um café sempre vem em companhia de uma gentileza, de um apreço. Em “tempos de cólera” é sempre bom ter um carinho, mesmo que seja por poucos minutos, do bom cafezinho.

*Renato Falci é fundador do CoffeeLook, escritório de gerenciamento de projetos especializado em branding e design para o mercado de café. Fale com o colunista pelo e-mail renatofalci@coffeelook.com.br Mais informações: coffeelook.com.br e instagram.com/coffeelook

TEXTO Renato Falci • ILUSTRAÇÃO Renato Falci

O branding é a alma do café

Para falar de branding é necessário enxergar além do que se vê. “Branding é a alma da empresa”. Quando aplicamos este conceito ao mercado de café as possibilidades podem se tornar infinitas, pois o processo de construção de marca é estratégico, e neste contexto também pode envolver a paixão. O branding está em toda a parte do negócio e podemos defini-lo como um conjunto de estratégias que faz o cliente perceber a sua proposta de valor através da interação com a sua marca.

Neste sentido é importante que a gestão da marca seja coerente com a essência do empreendimento. Quando se trata de café, transcendemos para um negócio que muitas vezes envolve sentimentos e família. O que é muito relevante se pensarmos que as pessoas não se apaixonam por produtos, mas por histórias. No entanto, para que se tenha empatia é necessário que as histórias sejam bem contadas para serem impressas em suas marcas, o que não é uma tarefa simples.

Podemos considerar o café como uma experiência de consumo e analisar, por exemplo, as cafeterias. Os atributos tangíveis, como a qualidade dos grãos, não são menos importantes, mas o que faz o cliente preferir uma cafeteria à outra se considerarmos as mesmas condições de qualidade do produto?

Pois é! Nesta hora é que a “alma” faz toda a diferença. A preferência é causada por uma sinergia que deve estar presente em todos os pontos de contato da marca. De um simples bom dia à aplicação correta do logo. Em se tratando de cafeterias, podemos falar, por exemplo, da decoração, da música ambiente, dos uniformes, das xícaras, canecas, de onde vem o grão e qual a sua história. É claro que existem outros fatores que interferem na escolha do lugar, mas o branding não é inocente, portanto tenha certeza de que aquela marca quer dizer algo a você.

Para fazer um exercício, imagine se uma cafeteria fosse uma pessoa. Que roupa ela vestiria? Qual estilo de música escutaria? Qual seria a decoração da sua casa? Qual seria o seu tom de voz? Quais seriam os seus valores? Que cheiro teria a sua sala? Ela seria hospitaleira? Você voltaria a casa dela se fosse convidado? Você seria amigo dessa pessoa?

Daqui a algum tempo ninguém sairá de casa para comprar alguma coisa se não for para ter uma experiência de consumo. Na linha da “Terceira Onda do Café”, o mercado tem-se atentado a consumidores mais exigentes e que se tornaram formadores de opinião. Hoje é importante entender que o storytelling da marca é tão importante quanto a sustentabilidade do café que está dentro da xícara.

Não importa o estilo, pode ser simples, descolado ou sofisticado, a marca estará presente de forma intuitiva ou estratégica. E não se engane, pois o branding estará presente dos pequenos gestos de gentileza aos mais sofisticados planos de gestão. O importante é que a gestão de marca consiga comunicar de forma verdadeira a sua essência, e que esse posicionamento atraia pessoas que se apaixonem pela sua história.

*Renato Falci é fundador do CoffeeLook, escritório de gerenciamento de projetos especializado em branding e design para o mercado de café. Fale com o colunista pelo e-mail renatofalci@coffeelook.com.br
Mais informações: coffeelook.com.br e 
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TEXTO Renato Falci • ILUSTRAÇÃO Renato Falci

A Semana Internacional é, antes de tudo, uma celebração do café

A Semana Internacional do Café (SIC) promove anualmente, no mês de setembro, o encontro de profissionais dedicados a fomentar o mercado, que cresce cada vez mais e apaixona os apreciadores da bebida. A escolha de Belo Horizonte para sediar o evento nos últimos quatro anos foi um presente para a cidade e fez jus à importância de Minas Gerais na produção de café no cenário nacional e no internacional.

O café especial vem ocupando um espaço maior nos últimos anos na capital mineira e o interesse por esse nicho merece atenção. O consumo da bebida diferenciada é uma experiência e muitos a transformam em um ritual.

A abertura de novas cafeterias, a formação e capacitação de profissionais e o interesse maior do público formador de opinião têm sido um movimento crescente. Vejo como tendência muito forte a preocupação com a qualidade do produto, que não se limita à bebida na xícara, mas engloba todos os elos da cadeia, do plantio à mesa.

O café é o protagonista desse universo, mas a cultura em torno da bebida ultrapassa as expectativas do que ela oferece como produto. A sua excelência flerta diretamente com o que está ao seu redor, principalmente durante o seu consumo – a apresentação deve ser coerente com a sua qualidade.

A preocupação com a sustentabilidade da produção, que impacta no âmbito social, econômico e ambiental, é constante. A história do café também tem se tornado muito relevante, já que o público do café especial está cada vez mais exigente e sedento de informações.

Nesse contexto, a Semana Internacional do Café contribui grandemente para o fomento da economia local, ao apresentar possibilidades e facilitar a interação de potenciais empreendedores.

O universo do café me influencia e me inspira de diversas maneiras. Tenho a bebida como uma “companheira”, presente diariamente em minha vida, e acredito que ela seja um agente importante no dia a dia de outras pessoas também. Sou frequentador assíduo de cafeterias e consumidor de cafés especiais. Observo de perto o crescimento desse mercado em Belo Horizonte e um interesse cada vez maior por parte de leigos, os coffee lovers, coffee geeks, que desejam explorar mais essa cultura. A Semana Internacional do Café favorece esse movimento, não somente como realizadora de negócios, mas também como um agente educador.

Diante desse cenário, destaco ainda as relações humanas, nas quais o café funciona como um grande provedor de negócios e amizades. Nesse aspecto, a SIC se tornou um grande ponto de encontro daqueles que vivem do café e pelo café. Ter a oportunidade de encontrar profissionais que atuam pelo País, quiçá pelo mundo, conhecer as suas trajetórias e empenho em promover um trabalho dedicado ao desenvolvimento do mercado é motivador e relevante para que cresça o interesse pelo produto.

Na última edição da SIC, tive a oportunidade de observar de perto a sinergia desse mercado e como é interessante participar e interagir com pessoas que compreendem o que significa trabalhar com café. Vai além do profissional, muitas vezes está no sangue de famílias que têm o café como tradição.

A SIC veio para agregar e tem cumprido sua missão com bastante competência. É assim que observo essa iniciativa, que aproxima pessoas, profissionais e empreendimentos focados em um só objetivo: o café!

*Renato Falci é apaixonado por café. Empreendedor com formação em Comunicação Social e Gestão de Projetos, é o fundador do CoffeeLook, escritório onde desenvolve projetos de branding e design para o mercado de café, e que transcende as artes e o seu estilo de vida. Fale com este colunista pelo e-mail colunacafe@cafeeditora.com.br ou renatofalci@coffeelook.com.br

(Texto originalmente publicado na edição impressa da Revista Espresso – única publicação brasileira especializada em café. Receba em casa. Para saber como assinar, clique aqui).

TEXTO Renato Falci • ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

Novos rumos para o desafio da sustentabilidade no café

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Nos últimos quinze anos, a cadeia do café realizou importantes avanços em direção à sustentabilidade e o café é talvez hoje o produto agrícola mais avançado nessa área. Contudo, os desafios continuam presentes e extremamente complexos. A implementação de boas práticas, que levam à sustentabilidade na produção de café, vem aumentando gradualmente, mas ainda há muito por fazer. Diversas ações fragmentadas vêm ocorrendo em todo o mundo e muitas delas na mesma direção e com os mesmos parceiros.

Com o objetivo de unificar os esforços mundiais na área de sustentabilidade na cadeia do café, evitar a duplicação de atividades e ganhar escala atingindo mais produtores, foi lançada, em março de 2016, na Conferência Mundial do Café na Etiópia, a Plataforma Global do Café (Global Coffee Platform – GCP www.globalcoffeeplatform.org). A iniciativa surgiu da união do Programa Café Sustentável (Sustainable Coffee Program – SCP) do IDH (Iniciativa do Comércio Sustentável), que atuava no Brasil desde 2012 por meio de diversos projetos, com a Associação 4C e seus mais de 300 membros. Trata-se de uma iniciativa pré-competitiva global, público-privada, multi-stakeholder com abordagem neutra e colaborativa.

Com a criação da Plataforma Global do Café, os integrantes da antiga Associação 4C tornaram-se automaticamente parte da GCP. O sistema de verificação, foco comercial da Associação 4C, passou a ser operado de maneira separada pela nova empresa criada para esse fim: a Coffee Assurance Services (CAS). A Associação 4C e o Programa Café Sustentável deixaram de existir em seus antigos formatos.

A Visão 2020 surgiu como uma aliança global de atores públicos e privados para coordenar esforços e atividades de sustentabilidade. Em inglês, Vision 2020 significa “visão perfeita” e a meta é buscar uma “visão de futuro”, incluindo ações até o ano de 2020 e já pensando no período que vai até 2030.

Além da Plataforma Global do Café, a Visão 2020 tem a participação da Organização Internacional do Café (OIC), cujos membros são governos de países produtores e consumidores. Assim se inclui o setor público no processo, o que permite planejar, de maneira participativa, objetivos e caminhos para a cafeicultura mundial, fortalecendo as comunidades rurais por meio de sistemas de produção lucrativos, sustentáveis e com foco em benefícios ao cafeicultor.

A Plataforma Global do Café será a implementadora da Visão 2020 e de programas nos principais países produtores de café do mundo para atingir os objetivos definidos coletivamente.

Para alinhar esses objetivos, ocorreu em Campinas, São Paulo, no último dia 21 de julho, o Workshop da Visão 2020, que contou com a participação de 43 pessoas de 34 entidades do setor café no Brasil. No Workshop foram avaliados, entre outros pontos, dez dos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas –(nacoesunidas.org/pos2015/agenda2030), aqueles que têm relação com o café. Outros sete workshops semelhantes estão ocorrendo por todo o mundo (Vietnã, Colômbia, Indonésia, Uganda, Tanzânia, Peru, Honduras) e os resultados serão compartilhados no workshop da Visão 2020 em Londres, a ocorrer antes da reunião da OIC em setembro de 2016.

O Programa Brasil da Plataforma Global do Café, coordenado pela P&A, continua desenvolvendo diversos projetos para estimular o aumento da sustentabilidade do café no Brasil em consonância com as demandas da cadeia produtiva brasileira. Convidamos a todos para fazerem parte dessa iniciativa e se tornarem membros da Plataforma Global do Café. A experiência mostrou que nenhum governo, entidade ou empresa será capaz de superar esse desafio sozinho e por isso escolheu-se a ampla colaboração como caminho para atingir a sustentabilidade, com foco principal no produtor.

(Texto originalmente publicado na edição impressa da Revista Espresso – única publicação brasileira especializada em café. Receba em casa. Para saber como assinar, clique aqui)

TEXTO Pedro Ronca e Nathália Monéa • ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

Qualidade na cafeicultura de pequeno porte

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Nunca pensei que minha admiração por Monteiro Lobato me levaria a estar conectada com a cafeicultura, principalmente com o pequeno produtor. Lobato foi um visionário. Sua obra, hoje, é fundamental para o conhecimento não somente dos problemas brasileiros, mas do homem do campo, de suas qualidades, suas fraquezas, suas aspirações e de sua resiliência. De uma vida extremamente urbana, eu me fiz uma profissional da terra e, com alegria e admiração, deixei-me cativar pelo cafeicultor, o pequeno e tímido que muitas vezes não tem ideia da sua importância junto à cadeia do agronegócio café.

Andei por quase todos os lugares em que temos produção de café e deparei com muita gente séria! As pessoas se juntam e não ficam somente falando de trabalho, elas falam da vida com humor e mordacidade, além daquela permanente generosidade em relação às fraquezas humanas. São séculos de sabedoria com a necessidade de conviver em uma estrutura social ímpar.

Nessas idas e vindas e nessas conversas com os pequenos produtores, observei que, entre eles, há dois tipos: o desanimado com a cafeicultura, e o muito feliz e orgulhoso com ela! A diferença básica entre um e outro é a forma como percebem o seu objetivo, e como conduzem suas ações respondendo a uma pergunta: “Aonde quero chegar?”. Um ponto quanto a esses dois perfis de cafeicultor é que o número daqueles que estão felizes e orgulhosos está aumentando. E, se o empreendedor começa a perceber que o café pode ser um agregador em sua vida e em sua família, ele vai mostrar, e com orgulho, que as futuras gerações podem ter qualidade de vida, com café de qualidade.

Como produzir com qualidade? É preciso ter empatia! E quem melhor que o pequeno produtor, que põe sua emoção em cada grão que produz, tendo atrelado a isso a certeza de que a sua vida está centrada nesse universo? A empatia é a variável emocional que vai fazê-lo abrir os olhos para outras variáveis que contribuem para a produção de café de qualidade: o clima favorável, ou seja, o microclima de cada talhão para a determinação da variedade a ser plantada, o solo adequado, a altitude e, para tudo isso caminhar, duas potencialidades que não podem faltar, que são o trabalho em família e a profissionalização.

O início da profissionalização é saber o que fazer com a informação que a lavoura nos dá. Um questionamento que sempre faço ao pequeno produtor, quando deparo com uma situação muito comum, que é a anotação no caderninho de bolso, é o que ele faz com todas essas anotações no bolso. E a resposta que ouço, em muitas das vezes é: “Para se um dia eu vier a precisar”. Não… Está errado! A função da gestão empresarial, seja ela de um empreendedor familiar e pequeno, seja de uma grande corporação, é digerir informações, e fazer com que elas sejam estratégicas para a tomada de decisão na busca de um objetivo único: produzir grãos de qualidade para ter uma vida com qualidade. Devemos entender todas as variáveis a que estamos expostos, e que não são controláveis, só assim podemos criar um plano estratégico, para nos potencializar. Só se pode julgar os resultados analisando a base das intenções. E a intenção é, com toda a certeza, passar nosso tempo trabalhando para o café, em vez de trabalhar nele.

Nosso grande pequeno produtor! Todos nós, que vivemos do agronegócio café, reconhecemos a sua grande importância dentro de uma pequena porteira. Orgulho é o sentimento que me envolve. Parabéns!

*Regiane das Graças Sorce Ferreira, a Guiga, é administradora, especialista em Comunicação e Marketing, em Mercados Futuros, em Administração Rural e tem Master em Marketing. É mestre em Sistemas de Produção da Agropecuária.
Fale com a colunista pelo e-mail colunacafe@cafeeditora.com.br

(Texto originalmente publicado na edição impressa da Revista Espresso – única publicação brasileira especializada em café. Receba em casa. Para saber como assinar, clique aqui).

ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

O sonho de um imigrante

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Minha visão da evolução da terceira onda tem agricultores, baristas e torrefações trabalhando juntos, fazendo parte do “outro lado” para entender mais sobre o nosso café. A maioria dos cafés de qualidade é exportada. Isso significa que a troca de informações entre torrefadores e produtores sofre, muitas vezes, devido à barreira da língua. Mas não tem desespero! Podemos nos comunicar aqui entre agricultores, baristas e torrefadores que buscam se tornar profissionais, que querem evoluir, que querem ser melhores.

Como fazer isso? Primeiro, precisamos realmente virar profissionais. Existem livros, cursos, empregos, a internet, revistas e campeonatos de café que podem ajudar na nossa pesquisa. Sem deixar de tomar café! Um bom barista pode ajudar o agricultor a conhecer seu próprio café. Uma coisa que atrapalha na venda do grão é que quem o produz não sabe o que o mercado quer. A cultura de tomar café pode ser bem diferente entre países. Melhor, então, fazer um produto específico para vender do que tentar vender o que se tem. Os baristas também têm uma experiência grande com diferentes grãos e podem falar sobre qualidade, aspectos da colheita e pós-colheita, apenas avaliando o sabor e o aroma do café. Isso pode ser um pouco avançado para a maioria dos baristas. Torrefadores têm mais experiência com isso, mas você não deve dizer que não pode. Sim, você pode.

O agricultor (ou os filhos dele) pode se educar a respeito do trabalho dos baristas para saber mais sobre os limites de qualidade do café. Como identificar problemas provenientes da colheita ou da pós-colheita. Nem todo mundo pode viajar para Oslo, Londres ou Nova York para fazer pesquisa. Precisamos cuidar da lavoura. O que é fácil fazer é comprar café de fora, café torrado aqui, talvez de vizinhos, e logo você vai saber mais.

Não é verdade que o melhor café vai para fora. Os melhores lotes de café são pequenos, duas sacas, dez sacas de café bem cuidado, representando tudo o que nós podemos realizar. As torrefações pequenas do País estão fazendo um trabalho muito legal, encontrando caminhos novos, pesquisando sobre torra e pós-colheita. O agricultor, em conjunto com o torrefador, tem facilidade de fazer experimentos pequenos, que podem dar resultados incríveis. Eu já provei muitos cafés dessas experiências que se mostraram impressionantes. Cafés que subiram 3 ou 4 pontos só por causa de uma fermentação benéfica. Grãos que, normalmente, são considerados normais, mas que ganham personalidade e qualidade após apenas uma separação entre maduros e verdes.

Não posso realizar o meu sonho sozinho. Eu acho que podemos melhorar o nosso futuro, o futuro do café, o futuro do País, trabalhando para melhorar a qualidade dos grãos. Isso vem junto com a mudança que estamos vendo. Quem não segue em frente fica atrás, sofrendo com preço baixo, colheita menor, variedades que não toleram a seca, mesmo tendo um produto que pode ser melhorado com pouco investimento.

É isso que eu estou tentando fazer aqui no Brasil. Pouco a pouco, com cursos, aulas, projetos pequenos, divulgando o que eu posso, fazendo a minha parte. Sei que eu não estou sozinho, mas precisamos que todos tomem uma parte da responsabilidade para si. Fazer o melhor com o que você tem, pensar sobre o que é possível. Nesse sentido, vão faltar limites…

*Eystein Veflingstad é norueguês, residente no Brasil, barista, mestre de torra e proprietário da 3ª Onda Consultoria em Café, empresa que tem como foco trabalhar com agricultores e cooperativas na missão de ajudar o cafeicultor a saber mais sobre o próprio café. Fale com o colunista pelo e-mail colunacafe@cafeeditora.com.br

(Texto originalmente publicado na edição impressa da Revista Espresso – única publicação brasileira especializada em café. Receba em casa. Para saber como assinar, clique aqui).

ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

Juntos pelo Comércio Justo

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Qualidade de vida. Essa expressão resume o que significa morar em Poços de Caldas. Localizada no sul de Minas Gerais, com cerca de 160 mil habitantes, a cidade é conhecida por suas águas termais, pela temperatura amena e pela produção de cafés especiais. Mas, agora, Poços de Caldas ostenta também o título de Primeira Cidade de Comércio Justo do Brasil.

Comércio Justo (Fair Trade) é um movimento que busca combater a pobreza por meio do apoio à agricultura familiar. Criado há 25 anos por um grupo de voluntários, o movimento dá a consumidores do mundo inteiro o poder da escolha entre um produto sustentável e um produto que pode agravar ainda mais o quadro de degradação socioambiental dos países em desenvolvimento.

Hoje o movimento encampa mais de 27 mil produtos, como café, bola de futebol, chocolate, chá, vinho, entre outros, no mundo todo. Apenas em 2012, o mercado de Comércio Justo movimentou mais de 4,9 bilhões de euros, um aumento de 33% em relação a 2011. Em 2013, mais de 1,3 milhão de agricultores familiares e trabalhadores rurais foram beneficiados diretamente pelo Fair Trade, em mais de setenta países. Números que chamam atenção.

Em 2000, nasceu uma forma de apoio a esse movimento iniciada em Garstang, pequena cidade ao norte da Inglaterra. Ali, Bruce Crowther reuniu um grupo de voluntários (sua mulher e a babá de seu filho) e, aos poucos, conseguiu criar a primeira Cidade de Comércio Justo (Fair Trade Town). Um trabalho que começou como o de uma formiga e hoje já alcança milhares de pessoas.

O objetivo de uma Fair Trade Town é contribuir com o movimento de Comércio Justo no combate à pobreza, devendo para isso atingir seis metas, sendo elas: ter um comitê gestor; ter lojas que comercializam os produtos de Comércio Justo; ter bares, cafeterias e restaurantes que sirvam produtos de Comércio Justo; ter grandes empresas que consumam internamente produtos de Comércio Justo; difundir o conceito nas escolas; e realizar ações na mídia local mantendo a população informada sobre o Fair Trade.

O movimento em torno desse tipo de comércio, que privilegia os pequenos produtores e não os “intermediários”, vem crescendo a cada ano e, em 2013, mais de 1,3 mil cidades de vinte países cumpriram as metas e são consideradas cidades de Comércio Justo. Poços de Caldas se orgulha de estar entre elas desde 2012 e de ser também a primeira cidade em um país em desenvolvimento que, além de produzir itens com o selo, incentiva o consumo desses produtos.

Mas como? A pequena cidade mineira realiza diversas ações, como feiras e palestras, e mobiliza os empresários locais. Atualmente, mais de 120 estabelecimentos aderiram à campanha, estudantes contribuem como voluntários, e uma grande rede de supermercados está desenvolvendo quiosques com produtos Fair Trade em suas cinco lojas.

Merece destaque a atuação com o café, principal produto encontrado em Poços de Caldas. Com grãos de alta qualidade produzidos no próprio município pela Associação dos Agricultores Familiares do Córrego D’antas (Assodantas), a prática do Comércio Justo está incentivando a criação de marcas de café, como o Café Família da Coopfam, de Poço Fundo, e o Café Justo Grão, de Santana da Vargem, além de outros produtos como banana, mel, castanha-de-caju, suco de laranja e até vinho.

O desafio é ver esse exemplo replicado em todo o País e possibilitar que cada vez mais consumidores façam uma compra consciente.

*Ulisses Ferreira de Oliveira é coordenador de Fomento Agropecuário da Prefeitura de Poços de Caldas (MG), consultor em Gestão Sustentável no Agronegócio e um grande defensor do Comércio Justo. Fale com este colunista pelo e-mail colunacafe@revistaespresso.com.br

(Texto originalmente publicado na edição impressa da Revista Espresso – única publicação brasileira especializada em café. Receba em casa. Para saber como assinar, clique aqui).

Inovação e tecnologia e a sustentabilidade

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Quem nunca, ao visitar uma fazenda de café, procurou encontrar maquinário histórico ou ver sacas de juta com marcas antigas? Quem nunca, ao visitar uma vinícola, preferiu tirar fotos dos barris de carvalho em vez dos tonéis de aço inox?

Reconectar-se com o passado é confortante, reforça nossa cultura e nossa história e, de certa forma, nos dá a sensação de um tempo mais calmo. Voltamos à origem. Porém, o presente nos impõe um grande desafio: garantir a produção com volume e qualidade para atender aos mercados, gerar valor econômico e preservar o planeta.

Impossível garantir volume e qualidade com técnicas antigas, mas também é insustentável expandir áreas ou abusar de defensivos. A saída é melhorar a eficiência, produzir mais e melhor com a mesma área e aprimorar e evoluir com técnicas que contribuam para a preservação dos ecossistemas.

No Cerrado, grande parte das fazendas faz colheita mecanizada. Além disso, na Daterra, temos um sistema de irrigação por gotejamento e nossos sistemas de seleção de café por via úmida e seca usam equipamentos de última geração.

Essa escolha pela tecnologia e inovação contínua passa muitas vezes a imagem oposta: que todo esse processo torna o nosso café distante da origem.

É exatamente o contrário. Na Daterra investimos continuamente para replicar em uma escala perfeita a mesma precisão com que se processa uma amostra de café, minimizando ao máximo o impacto ambiental. Mas, para isso, ampliar a curiosidade, quebrar paradigmas e pesquisar são atitudes essenciais para inovar.

Não é preciso ser um grande produtor ou um pequeno orgânico. A saída é um blend equilibrado entre os objetivos e as necessidades econômicas do produtor, equacionado com as possibilidades agrícolas. Ter um tablet no campo consolidando as informações em tempo real sobre solo, água e, consequentemente, mostrando a real necessidade de um nutriente é tão inovador e relevante quanto aprender com a cultura orgânica a melhor compostagem para equilibrar o solo.

Dessa forma, ser sustentável atualmente vai muito além dos critérios de uma certificação. Deve ser acima de tudo uma adequação das possibilidades de cada produtor com o objetivo comum de produzir sem gerar impacto negativo no meio ambiente.

*Isabela Pascoal é diretora executiva da Fundação Educar DPaschoal e responsável pelo desenvolvimento sustentável da Daterra Coffee. Fale com a colunista pelo e-mail colunacafe@cafeeditora.com.br

(Texto originalmente publicado na edição impressa da Revista Espresso – única publicação brasileira especializada em café. Receba em casa. Para saber como assinar, clique aqui).

ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

Banco de Germoplasma do IAC está em perigo

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Produtores e torrefadores ao redor do mundo estão familiarizados com as variedades de café mundo novo e catuaí. E quanto a icatu, obatã, tupi, caturra vermelho, caturra amarelo e bourbon amarelo? Todas são brasileiras e cada uma deve sua existência ao Instituto Agronômico de Campinas. O IAC foi fundado há 128 anos pelo imperador português D. Pedro II, em 1887. E, entre seus maiores tesouros, está um banco de germoplasma de café datado de 1929.

“Inicialmente, diferentes variedades de arábica foram coletadas de diversas regiões do Brasil. Naquela época, elas eram: típica, amarelo de botucatu, bourbon vermelho, sumatra, maragogipe e caturra. A partir dessas plantas, muitas variações/mutações foram encontradas nos campos e trazidas para Campinas”, explica o pesquisador do IAC, Gerson Giomo.

Um programa de melhoramento genético foi iniciado em 1932, quando centenas de pés de café de outros países chegaram para estudo. Os resultados de 80 anos de pesquisa representam um enorme legado científico, útil no Brasil e em outros lugares.

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“Catuaí vermelho e caturra vermelho, por exemplo, são variedades muito cultivadas na América Central. E obatã está em processo de implementação na Costa Rica”, explica Giomo. “Estima-se que 90% dos 4,3 bilhões de pés de café brasileiros são derivados de cultivares desenvolvidas pelo IAC”, disse.

No século passado, o Instituto desenvolveu 66 cultivares comerciais de café arábica e uma cultivar de robusta. O IAC supervisiona o maior e mais ativo banco de germoplasma do Brasil, com 16 espécies, uma diversidade de formas botânicas, mutações, e variedades exóticas originadas pela diversificação de Coffea arabica e Coffea canephora. Um total de 5.451 acessos e 30.000 plantas estão sob os cuidados do Estado de São Paulo.

“É importante ressaltar que todas as pesquisas de melhoramento genético foram financiadas pelo governos Federal e Estadual. A nossa instituição não lucra com o conhecimento produzido”, explica Giomo. Por esta razão, a maioria de sua tecnologia é livre para outros usarem.

Infelizmente, a atual crise econômica e política coloca o banco de germoplasma em perigo. Um déficit financeiro nos últimos cinco anos limitou a manutenção, culminando na atual situação precária para essa coleção insubstituível.

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Pesquisadores já fizeram o seu melhor para cuidar das plantas, mas aposentadorias e a pouca mão de obra forçaram o conselho administrativo do IAC a procurar fundos financeiros para evitar erosão e o fim dessa base genética, que é essencial para a pesquisa científica e tecnológica. “Estamos procurando uma parceria público-privada em diversos setores que, direta e indiretamente, se beneficiaram com a tecnologia produzida pelo IAC”, explica Giomo.

*Kelly Stein é jornalista e correspondente da revista STIR Tea&Coffee. Fale com a colunista pelo e-mail colunacafe@cafeeditora.com.br ou kellyrstein@gmail.com

(Artigo originalmente publicado na revista tailandesa STIR Tea&Coffee)

TEXTO Kelly Stein • FOTO Paula Rúpolo/Café Editora