Coluna Barística por Mariana Proença

Experiências com café e sobre a profissão barista

Quantos pontos tem esse café?

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A história do café especial é muito recente, muito mesmo. Neste momento, em que estamos usando cada vez mais essa definição para cafés, acredito que seja importante o resgaste dos conceitos e a discussão sobre o caminho pelo qual estamos indo.
Em 1921, nascia a norueguesa Erna Knutsen, na cidade de Bø, região no condado de Nordland. Aos 5 anos, a família mudou-se para Nova York (EUA). Erna seguiu boa parte da vida sem nem pensar em trabalhar com café. Somente por volta dos 40 anos assumiu o cargo de secretária de Bert Fullmer, na B. C. Ireland, uma empresa de importação de café em São Francisco. Na década de 1970 Erna, já muito interessada no setor, recebeu do chefe a missão de cuidar de um pequeno nicho da empresa, pequenos lotes que não enchiam um contêiner e chegavam a, no máximo, 250 sacas. Apesar de serem quebras de outras importações, esses grãos de “sobra” eram de altíssima qualidade. Por causa disso, Erna passou a comercializá-los em microtorrefações da Costa da Califórnia que começavam a pipocar na região. A ideia deu muito certo.

O passo seguinte foi aprender a provar café. Uma função ainda muito masculina à época. Nas mesas de classificação, depois de muito treino, ela passou a chamar a atenção de torrefadores e compradores americanos. Sua reputação, construída com bastante persistência, atravessou continentes. Em 1974, em entrevista para o tradicional Tea & Coffee Trade Journal, Erna usou o termo “specialty coffee” para definir os cafés que trabalhava, para ela “diamantes”.

A definição batizou um movimento, que já começava nos Estados Unidos e na Europa, de cafés de qualidade, lotes menores, com origem definida e que, depois de quase uma década, ganhou força e levou à criação da Associação Americana de Cafés Especiais (SCAA), em 1982. Ela, participante de todo esse movimento, fundou em 1985 a própria empresa, a Knutsen Coffees.

O mercado evoluiu muito nesses 42 anos, desde que Erna falou em cafés especiais, mas continua muito jovem. O diretor executivo da SCAA, Ric Rhinehart, em artigo de 2009, escreveu: “Microclimas geográficos especiais produzem grãos com perfis de sabor único, a que se referiu Erna Knutsen como ‘cafés especiais’. Essa noção básica é a premissa fundamental para que, sempre, um café especial seja bem-cuidado, recém-torrado, e devidamente preparado no método a escolher. Essa é a missão em que a indústria do café especial está envolvida há vinte anos e que lentamente vamos ampliando.”

Esse conceito ficou tão forte que, para torná-lo mais ‘palatável’ para o mundo, a SCAA, juntamente com diversos parceiros, desenvolveu a Roda de Aromas e Sabores, em 1997, com o intuito de unificar a linguagem e os parâmetros de avaliação para profissionais. Os pontos de 0 a 100, que o mercado usa hoje, foram a maneira encontrada pelos compradores para balizar a prova de cafés.

Pontuações que, a meu ver, devem ainda ficar no âmbito dos profissionais e que pouco agregam para o consumidor. Este ainda está aprendendo o que é o ‘tal’ café especial. Pular etapas é perigoso. A história recente mostra que é preciso trabalhar mais a origem, as microrregiões, o produtor, a procedência do produto. Só isso poderá nos aproximar mais de quem cultiva o café. A matemática dos pontos, nesse caso, só nos distancia do humano que há por trás daquele grão de café. Menos informação de pontos e mais informações sobre quem produziu, quem torrou, quem preparou.

Erna, hoje com 95 anos, declarou ao jornalista Mark Pendergrast, no livro Uncommon Grounds: The History of Coffee and How It Transformed Our World, que o café “foi o maior amor que ela teve na vida”. Com certeza ao batizar o café como especial, ela estava muito mais ao lado da emoção do que da pontuação. Aquela sensação carinhosa de sabores e aromas, das verdadeiras joias, da sua “grand passion”.

*Mariana Proença é jornalista. Em 2006 assumiu a direção de conteúdo da Espresso e, meses depois, o café já tinha virado uma paixão, que dura até hoje. Nesta coluna ela aborda diversos assuntos e experiências sobre o tema.
Fale com a colunista: mariana.proenca@cafeeditora.com.br

(Texto originalmente publicado na edição impressa da Revista Espresso – única publicação brasileira especializada em café. Receba em casa. Para saber como assinar, clique aqui).

ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

No Curso

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Descobrir a origem das palavras para mim sempre foi um grande divertimento. Então, dia desses fui ao dicionário saber o significado de “curso”. Para minha surpresa, vieram muitas definições. Desde o ato de correr em si, um movimento contínuo, com rumo e direção, até um caminho percorrido por um rio, que segue seu curso. Ou ainda uma sucessão temporal, como um curso de acontecimentos ou de raciocínios. Uma palavra, tantos caminhos possíveis na nossa rica língua portuguesa.

Assim vejo hoje o nosso mercado de cafés. A cada dia surge uma cafeteria, uma microtorrefação, uma marca de café. Em todos os cantos do Brasil, no interior, nas capitais, há muitos empreendedores investindo na área. Porém, uma tendência que vem junto com essas inaugurações é o ato de oferecer cursos. Muitos novos negócios abrem no Brasil e junto com eles surge o braço educacional.

O fato é que os jovens empreendedores desse setor perceberam, já há algum tempo, que não há como conquistar um novo público consumidor de café especial sem educar, dar bases e parâmetros de aprendizado, ensinar e trocar experiências de degustação de café e outros produtos. Num momento em que há um crescimento do interesse dos jovens por produtos saudáveis, de procedência, origem e rastreabilidade é que entram as perguntas, as dúvidas e os aprendizes.

Por isso, em toda nova cafeteria ou microtorrefação há um curso básico começando, uma degustação comparativa, harmonização com outros produtos gastronômicos e, o mais importante, existe o público interessado. Cada vez mais pessoas estão a fim de conhecer algo novo e com isso compartilhar com amigos e familiares.

Dessa forma os novos espaços conseguem agregar valor ao local, incrementar a renda com ganhos extras de cursos e ainda fidelizar aquele cliente, que compra o café no estabelecimento e leva novos apreciadores para conhecer o lugar.

Entram também nesse rol de opções as fazendas que oferecem experiências de hospedagem e abrem cafeterias dentro das propriedades, tema já tratado por aqui em colunas atrás. Os consumidores estão ávidos por conhecer um pé de café, fazer uma colheita com as próprias mãos, provar do grão que teve a sua participação direta. Viver esses momentos únicos é o que cativa pessoas de todas as idades para que aprendam sobre café, uma bebida democrática, que atinge todas as camadas da nossa sociedade.

Não me canso de dizer que trabalho com café e de arrancar um sorriso do rosto da pessoa que perguntou. A pergunta sempre vem acompanhada de curiosidades sobre qual é o melhor café, as espécies, a produção, enfim, há um mundo de aprendizes buscando conhecimento a respeito da bebida mais consumida no Brasil e que poucos sabem de onde vem, poucos conhecem o curso pelo qual o fruto passa até chegar à nossa xícara.

São esses inúmeros cursos por que o café passa que todos querem saber. E é cursando essas histórias e experiências que conseguiremos construir um novo público consumidor, mais conhecedor, interessado e, claro, exigente com o que está tomando. Seguimos.

*Mariana Proença é jornalista. Em 2006 assumiu a direção de conteúdo da Espresso e, meses depois, o café já tinha virado uma paixão, que dura até hoje. Nesta coluna ela aborda diversos assuntos e experiências sobre o tema.
Fale com a colunista: mariana.proenca@cafeeditora.com.br

(Texto originalmente publicado na edição impressa da Revista Espresso – única publicação brasileira especializada em café. Receba em casa. Para saber como assinar, clique aqui).

ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

A Força do Interior

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No interior do nosso Brasil há muito que aprender. Como tenho rodinhas nos pés, viajo sempre que possível para conhecer as histórias de café do nosso País. E quero confessar que adoro! Sem clichê, aprende-se demais com tudo. Desde os momentos de dificuldade para chegar a algum lugar mais distante até algumas surpresas que sempre encontramos pelo caminho. Que viagem não tem algum imprevisto? O que mais me encanta são as pessoas com que cruzamos em cada entrevista, cada parada. Tudo muito corrido, pois jornalista sempre tem pouco tempo. As idas e vindas me fazem relembrar aquele lugar por vários dias depois. Fico absorvendo o que ouvi, relendo o que anotei e pensando em como transformar aquilo em palavras que repercutam aquela vivência em mais gente.

O mais gratificante é encontrar algum leitor meses ou anos depois que te confidencia: “Tomei uma decisão na minha vida depois que li essa matéria”. Ou um apaixonado por café que conheceu o método Aeropress lendo a revista e ficou tão entretido com o tema que participou até do campeonato do preparo.

Enfim, são tantas histórias bacanas, tantos momentos retratados que tudo isso me inspirou a resgatar qual foi o olhar da Espresso para o mercado nesses últimos dez anos. O olhar que é da revista, mas que tem o poder de carregar cada palavra dos jornalistas e cada olhar dos designers e fotógrafos que sobre ela se debruçaram para deixar as páginas repletas de histórias.

Foi tão gostoso rever e reler muitas matérias e perceber que o tempo é curto, mas é muito para mudar bastante coisa. É possível perceber que a linguagem de um novo mercado passa por várias fases e se altera todo o tempo. Termos que usávamos há dez anos hoje não representam a mesma ideia, principalmente na referência ao café de qualidade. Antes falávamos muito em blend e nada em origem única, que era somente estate coffee; também se falava muito em café de terroir. Microlotes surgiram citados na revista em 2010. Os novos preparos de café chegaram em mais volume ao Brasil também neste mesmo ano e a febre da Hario v60, Chemex e Aeropress instalava-se nas cafeterias das grandes metrópoles pouco depois.

Vivemos esses últimos anos de forma muito intensa, conhecemos mais gente, vimos mais pessoas entrar nesse mercado e, o mais curioso, percebemos que a onda do café está adentrando o interior do Brasil. São novos negócios que surgem ano a ano, como microtorrefações, cafeterias e coffee bikes e trucks.

Por isso, a cada ano eu me sinto mais animada em viajar pelo Brasil e estar em eventos como a Semana do Café de Lorena, que reúne, na região do Vale do Paraíba, há cinco anos, apaixonados por café e profissionais da área. O idealizador, Marcelo Malerba, enxergou em uma loja de conveniência da cidade que havia espaço para uma cafeteria de qualidade, a Malerba Café. Há dez anos ele apostou na ideia e hoje a casa é referência em toda a região. Iniciativas como a dele são exemplos de como podemos começar a mudar alguns hábitos de consumo, sem imposições e sem chatice, mas com informação, educação e muito café bom servido durante os encontros.

Independentemente de onde estejamos, podemos abrir novos espaços e haverá sempre pessoas dispostas a abraçar a ideia conosco. Que mais iniciativas surjam no nosso interior e que possamos viajar pelo Brasil para contar essas novas histórias.

*Mariana Proença é jornalista. Em 2006, assumiu a direção de conteúdo da Espresso e, meses depois, o café já tinha virado uma paixão, que dura até hoje. Nesta coluna ela aborda diversos assuntos e experiências sobre o tema.
Fale com a colunista: mariana.proenca@cafeeditora.com.br

(Texto originalmente publicado na edição impressa da Revista Espresso – única publicação brasileira especializada em café. Receba em casa. Para saber como assinar, clique aqui).

TEXTO Mariana Proença • ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

Frio na barriga

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Posso ser saudosista na minha coluna desta edição? Neste ano completo uma década de trabalho no mundo do café, mais precisamente na Café Editora, onde comecei e continuo. São quarenta edições da Espresso, centenas de apurações, entrevistas, textos, experiências, eventos, projetos especiais, livros e milhares de profissionais que conheci por causa do café. Aquele chavão de que o café une as pessoas serve mais ainda para quem trabalha nessa área.

Não tenho vergonha nenhuma de dizer que não conhecia quase nada sobre o grão quando comecei a trabalhar como jornalista que escrevia sobre o tema. Fui sincera na minha entrevista de emprego. Mas tenho muito orgulho de dizer que ralei bastante para saber mais. É um desafio enorme começar do zero, mergulhar no desconhecido, entrevistar pessoas que começaram a trabalhar na área antes de você nascer e, em meio a esse aprendizado, com meus 20 e poucos anos na época, ainda ter a missão de criar outra linguagem para falar de café, ser criativa, pensar em pautas diferentes das tradicionais.

Como ninguém faz nada sozinho, tenho a imensa parceria de diversos talentosos profissionais que me ajudam diariamente a seguir em frente e produzir, produzir, produzir. Acredito que estamos neste mundo para deixá-lo melhor, construir coisas boas que possam contribuir com a vida de outros e para o futuro. É isso que me move. Sem essa certeza, não teria vontade de levantar para começar o dia.

Com esse sentimento, levei esses dez anos e com muito entusiasmo vejo que o mercado de cafés especiais no Brasil mudou muito. É um tempo curto, se levarmos em consideração a cultura do café, mas foi um período de grandes transformações. E o melhor é ver que contribuímos para isso. Quem investiu no café de qualidade, no produto de ponta, no serviço bem executado está caminhando junto nesse movimento, que só cresce. Novas pessoas estão abraçando a causa e, o mais importante, há cada vez mais consumidores com vontade de viver diferentes experiências ao provar um café. Estamos passando por mudanças e isso é muito bom.

Por isso, seguimos realizando projetos cafeeiros Brasil afora e pelo mundo que possam inspirar (como já aconteceu) outras pessoas a começar a trabalhar no setor. Hoje, sim, somos referência para mídias internacionais, nós temos o grande diferencial de produzir conteúdo de café (muito bem-feito, modéstia às favas) em um país produtor, onde temos enorme campo de trabalho, um continente para explorar e muitas e muitas histórias e exemplos.

Conta-se que, quando a Espresso começou, em 2003, uma pessoa que foi apresentada ao projeto disse: “Nossa, mas vai ter assunto para uma revista?”. Não só para uma, como para 51 e mais outras dezenas. Ah, o mundo do café… Um verdadeiro encanto que, quanto mais se sabe, menos se sabe. A eterna busca pelas verdades absolutas. Que o frio na barriga nunca nos abandone e que possamos construir dezenas de novas histórias pela frente, repletas de brilho nos olhos e muito café bom.

(Texto originalmente publicado na edição impressa da Revista Espresso – única publicação brasileira especializada em café. Receba em casa. Para saber como assinar, clique aqui).

TEXTO Mariana Proença • ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

O empoderamento do produtor

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Em casa de ferreiro, o espeto é de pau, diz a expressão popular. O provérbio é muito usado pelo Brasil, não na mesma quantidade em que bebemos café diariamente. Mas ele serve perfeitamente de exemplo para o fato que contarei agora. Em andanças pelo Brasil e nas visitas a fazendas e sítios, uma coisa é fato: muito cafeicultor não conhece o próprio café. A hospitalidade do povo da roça é algo maravilhoso, mas, normalmente, o bolo é melhor que o café, o queijo é melhor do que o café, o suco, a rosca doce, e por aí vai. Depois de comer de tudo um pouco (motivo dos quilos a mais), a gente até esquece o café que amargou a boca. “Esse café é aqui da fazenda?” – vem a pergunta. “Não, esse aqui eu comprei no mercado.” Momento de reflexão e análise. Mas por que será que eles compram o café? Sempre pensei. Eles são produtores do fruto, trabalham debaixo do sol, colhem, secam, beneficiam e não tomam? Pois é, muitos não tomam o próprio café que produzem.

Esse é o primeiro sinal da complexidade dessa bebida. Se todo brasileiro pudesse conhecer uma fazenda de café, com certeza ele mudaria completamente a forma de valorizar o que toma. Se todo produtor tomasse o próprio café, ele transformaria o que cultiva. Pode ser utopia, mas acredito que contribuiria em muita coisa.

A primeira dificuldade para o produtor tomar o próprio café consiste numa etapa crucial pela qual passa o grão: a torra correta. Se o sítio tem um torrador, normalmente é um manual, com poucos recursos, que acaba queimando o café. Além, claro, do trabalho que dá para ele depois moer o grão para preparar a bebida. Por isso a realidade da maioria dos produtores é nunca ter provado seu café na sua melhor performance.

Porém, tenho percebido mudanças nos cafeicultores que passam a focar a produção de cafés especiais quando têm acesso ao conhecimento. Há um interesse enorme – um misto até de curiosidade – em identificar os aromas e os sabores de seus grãos. Um momento de redescoberta do seu produto. Muitas iniciativas de capacitação dos cafeicultores pipocam pelo Brasil afora em provas profissionais, eventos, palestras, concursos, etc. Isso os ajuda a entender o que eles têm nas mãos. O que os leva, muitas vezes, a investir em equipamentos mais apropriados e até a pensar em empreender um pequeno negócio de venda do seu produto na região, de forma mais intimista, muitas vezes.

Oportunidades que antes se restringiam à colheita e ao manejo do produto cru passam a agregar valor. Isso ajuda os produtores a negociar melhor a venda para os torrefadores nacionais e internacionais, agrega aprendizado de outra etapa da cadeia do café e ainda os faz ter orgulho daquilo que produzem. O empoderamento do produtor e da produtora de café vem tornando esse profissional mais exigente e capaz de, já na colheita, entender por que ele deve priorizar os frutos maduros, mexer o café no terreiro várias vezes ao dia, evitar a umidade, e tantas outras etapas importantes.

O sentimento de orgulho de algo, de mostrar e fazer brilhar os olhos é o que nos move diariamente. Como os pais e mães vão convencer os filhos a permanecer no campo se eles não puderem mostrar, por meio do exemplo, que há oportunidade de crescer e alcançar objetivos claros com um produto cultivado no campo? Só havendo essa conexão, acredito, poderemos dizer que vale a pena tanto esforço. A rapadura é doce, mas não é mole.

MARIANA PROENÇA é jornalista. Em 2006 assumiu a direção de conteúdo da Espresso e, meses depois, o café já tinha virado uma paixão, que dura até hoje. Nesta coluna ela aborda diversos temas e experiências sobre a profissão barista. Fale com a colunista: mariana.proenca@cafeeditora.com.br

ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

Café com afeto

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O café é casado com o açúcar há dezenas de anos. Já completaram umas quatro bodas de ouro e, sem festa, mas com grande fidelidade, mantêm essa relação duradoura. Eles são daquele tipo “casal chiclete”, que não desgruda por comodidade e tradição. Onde está o café, lá vem o açúcar. Trata-se, muitas vezes, de um casal moderno, que se adapta a qualquer realidade vigente no País. Falta água, mas não falta afeto, quer dizer, açúcar.

Além da relação íntima entre eles, esse é o perfil de um casal que tem torcida. Todos querem que eles fiquem juntos, ou a maioria deseja isso. Se o café aparece sem o açúcar, a confusão está formada. É um falatório sem igual. Cochichos para todos os lados. Imagina o café puro saindo por aí? O casal tem árduos defensores e não adianta querer separar os dois. Pior ainda é insinuar que o café, então, é melhor que o açúcar. Nossa, há revolta e até protesto:

“O quê? Esse café é especial?”. “Mas o que ele tem de tão diferente assim para o açúcar ser posto em segundo plano?”. “Nossa, que absurdo!”, bradam alguns. Daí vêm as críticas ao café: “Nossa, mas que café fraco!”, “Cadê o açúcar?”, “Que amargo”, “Cadê o açúcar?”. O café passa de chafé a muito forte em questão de segundos, tudo porque não está acompanhado do açúcar.

Conclusão: o açúcar nunca se sentirá sozinho. É daquele casal que, mesmo terminando o relacionamento, terá sempre alguém tentando criar uma situação de reencontro. Coisa boa de amor. De mãos dadas eles saem pelas ruas alegrando os apreciadores e tornando a vida cheia de energia e mais doce.

Às vezes o leite chega para fazer companhia, mas só em alguns momentos do dia ele pode entrar na conversa. Para agradar, o tal do leite às vezes faz até um desenho bonito, que deixa tudo em harmonia. Tenta também versões desnatadas, com soja, integral e direto da fazenda. Mas nada supera a presença do açúcar nessa relação.

Eis que, em tempos modernos e de grãos bem cuidados, surge um café independente, completo, que não precisa do açúcar para sobreviver. O café ganha uma liberdade nunca vista na relação e passa a circular sozinho por aí. Mas há quem sempre pergunte: “E o açúcar, como está?”. E o café: “Ah, nós terminamos”.

E assim o café repete essa frase inúmeras vezes ao dia. Tem algumas recaídas, claro, encontrando-se com o açúcar em dias mais amargos, em que precisamos de afeto. Mas isso sem que ninguém veja. Ele, o café, pensa: “Eu sei que o certo é não estar perto de você”. Talvez porque ele altere o temperamento, ou mascare o real jeito de ser do café, ou mesmo sobressaia ao grão, sempre o centro das atenções, mas nem sempre do sabor. Porém a relação deles é tão longa, estão tão acostumados um ao outro que sem o açúcar a vida vira um grande martírio para o pobre café.

Então o café continua sendo um grande companheiro, mas sem a obrigação de estar junto. E o açúcar, ah, esse é pau pra toda obra e topa qualquer convite. Está presente em todos os lugares, bares, e sempre indo ao encontro do café.

Esse relacionamento vai e vem, volta ou não volta, separa definitivo ou se vê de vez em quando é a grande graça da vida. Eles descobrem que é difícil viver totalmente separados, mas que há momentos em que é bom experimentar sair sozinho por aí e ter sua liberdade, seus outros complementos, conversas. As regras, ah, essas deixamos de lado, queremos que seja sempre com muito afeto e uma boa companhia.

*MARIANA PROENÇA é jornalista. Em 2006 assumiu a direção de conteúdo da Espresso e, meses depois, o café já tinha virado uma paixão, que dura até hoje. Nesta coluna ela aborda diversos temas e experiências sobre a profissão barista. Fale com a colunista: mariana.proenca@cafeeditora.com.br

TEXTO Mariana Proença • ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

Na onda de país produtor

Oliver Strand, jornalista especializado em café, escreveu recentemente um artigo no norte-americano The Wall Street Journal sobre a nova geração de torrefadores dos Estados Unidos que – depois de trabalharem em grandes marcas de cafés especiais como Blue Bottle, Counter Culture, Intelligentsia e Stumptown – estão abrindo o próprio negócio e optando por lugares mais intimistas, onde possam torrar o café e também servi-lo. O aprendizado adquirido nessas marcas de referência ajudou profissionais criativos e empreendedores a ampliar as opções de cafeterias pelo país e, mais do que isso, investir em cidades menores ou com pouca tradição de negócios com esse perfil. E assim crescemos.

E na América do Sul e Central, o que estamos fazendo pelo café especial? Não são poucas as iniciativas de profissionais para ampliar esse mercado. A onda sul-americana e centro-americana é igualmente motivadora. Exemplos não faltam. Baristas locais enxergaram nos mercados emergentes de café do mundo e, na maioria dos casos, países produtores, a oportunidade de investir em negócios de torrefação e cafeteria.

Raul Rodas, campeão mundial em 2012, recentemente inaugurou a Paradigma Café, na capital da Guatemala. Desde 2011 a torrefação, de mesmo nome, funciona com cafés de produtores locais. Desde o início de 2015, o barista tem cafeteria na capital do país com poucas mesas e focada no serviço exclusivo da bebida.

Na mesma pegada, Alejandro Mendez, de El Salvador – o primeiro campeão mundial (2011) de um país produtor –, saiu recentemente da Viva Espresso, do empresário e treinador Federico Bolanos, para empreender na torrefação 4 Monkeys Coffee Roasters. Ele e mais três amigos fundaram o coletivo, que tem como objetivo promover os cafés especiais do país diretamente da capital San Salvador.

Fabrizio Sención Ramírez, o segundo lugar no campeonato mundial de 2012, é outro desta safra talentosa de baristas. Mexicano de Guadalajara, inaugurou recentemente um misto de cafeteria e restaurante, o Café Palreal, com mais três amigos, um deles chef de cozinha, que topou o desafio de servir cafés especiais ao público igualmente aprendiz, como no Brasil. Após ter criado a própria torrefação, a Café Sublime, Fabrizio desenvolveu marca própria, a Café Estelar, que valoriza regiões pouco conhecidas pela produção de cafés no México.

Já o barista Harry Neira, do Peru, campeão nacional em 2013, abriu sua cafeteria em Lima, no delicioso bairro de Miraflores, e um segundo empreendimento, um coffee
truck com seu nome.

Na Colômbia, profissionais têm se mobilizado também para a valorização do café local. É o caso de Jayson Galvis e Manuel Barbosa,
que, provenientes de regiões produtoras, tiveram a ideia de abrir, em Bogotá, uma cafeteria em extensão ao trabalho realizado com cafeicultores locais. Nasceu o Café Azahar, um contêiner supermoderno que serve métodos diversos e faz também um trabalho primoroso com a torra.

Você deve estar se perguntando. E no Brasil, nada? No Brasil, tudo! Há diversos exemplos de projetos que nasceram nessa onda produtiva. Os pioneiros Lucca Cafés Especiais, Coffee Lab, Suplicy Cafés Especiais e Santo Grão foram desbravadores e hoje seus proprietários são referências no mercado de café e formadores de dezenas de profissionais. O conhecimento de café já se espalhou por outras cidades brasileiras e aguçou novos empreendedores. Com uma vantagem: no Brasil há muitos produtores com perfil empresarial. E eles mesmos abrem seus negócios para além da fazenda, mas sem sair da sua região. É o caso de Terroá Cafés Especiais, na Chapada Diamantina (BA), A Cafeteria, em Serra do Caparaó (ES/MG) e Unique Cafés, em São Lourenço (MG), para dar somente alguns exemplos. Os próprios cafeicultores abriram cafeterias em suas pequenas cidades, com produtos regionais e cafés das fazendas, mas sem esquecer das tendências em preparo. Sinal de crescimento do mercado para além das capitais. E que assim seja, para que, finalmente, a vida seja muito curta para tomar tanto café bom.

*Mariana Proença é jornalista. Em 2006 assumiu a direção de conteúdo da Espresso e, meses depois, o café já tinha virado uma paixão, que dura até hoje. Nesta coluna ela aborda diversos temas e experiências sobre a profissão barista. Fale com a colunista: mariana.proenca@cafeeditora.com.br

ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

Detalhes tão imensos

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A cidade de Santos é imensa para mim. Imensa de boas lembranças desde a infância. Foi lá que passei muitos dos meus finais de semana, desde que me entendo por gente, foi lá que foram construídas as raízes de minha família dos dois lados, de mãe e pai. Porém é do lado espanhol que ficaram as histórias mais pitorescas e os causos mais vivos em nossas memórias.

Do lado dos Quintas e também dos Passos já começa pela coragem de chegar ao Brasil, vindo da região da Galícia, com apenas pouco menos de 16 anos de idade. Meu bisavô, Daniel, largou o pouco que tinha em Verin, e, em Santos, escolheu morar. Como ajudante de confeiteiro, limpando forminha de doce, ele depois de muitos anos empreendeu sua primeira padaria na cidade. Minha bisavó, Benita, o conheceu na comunidade espanhola e, juntos, formaram uma família de quatro filhas: Rosa, Serafina, Lourdes e Quininha. Todas tinham que trabalhar na padaria, ajudar no caixa, a cortar frios e a pegar os pães. Só não podiam ficar no balcão do café, onde não era lugar de moças, pensava meu bisavô.

Durante décadas minha família ficou envolvida com a padaria, que teve seus momentos de glória e reconhecimento, no bairro do Boqueirão. A Padaria Independência era referência e é lembrada até hoje na cidade. Então nada mais natural do que nas conversas depois do almoço, na hora do café, a minha avó Fina lembrar das histórias. Sempre começava com a frase “na época da padaria…”. E assim aprendíamos muitos detalhes daquele tempo a partir dos anos de 1940, da rotina de trabalho, dos milhares de clientes que ali passaram, das manias de cada um, do jeito dos meus bisavós, do caixotinho que ela subia para atender a clientela, das cantadas que recebia no caixa e das médias servidas (em Santos pão é média, viu?). Também teve a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), que não tinha farinha, o que obrigou meu bisavô a fazer pão com macarrão, que só se podia abrir uma porta da padaria, que havia racionamento de pão e que à noite não podia acender a luz, para que os inimigos não avistassem a cidade do mar.

Muitas passagens lindas, engraçadas e muito vivas na memória da minha avó Fina. Mas nem só de trabalho na padaria são as recordações. Tinha baile de Carnaval, as pequenas peripécias dentro do Bonde na ida para a escola, algumas viagens ao interior de São Paulo, onde nasceu meu avô Agostinho, com que ela casou em 1949, enfim, muita coisa boa.

Infelizmente as narrativas da minha querida avó terminaram agora em janeiro, mais precisamente no dia 21. A saudade é enorme. Mas a maior delas é daqueles encontros de domingo, em volta da mesa da sala, regados a café. Ficou mais especial, pois, nos últimos anos, fui promovida a fazer os preparos.

Ela dizia: “vai ter café?”. Sempre tinha, claro. Mas ela dava o “sinal”. E lá ia eu pegar o tradicional coador, filtro de papel e a garrafa térmica na cozinha. Tudo sempre muito organizado, óbvio. O pote para armazenar o café e o filtro, o medidor e sempre o mesmo pó. A bandeja tinha tudo para o deleite dos parentes-formigas: adoçante, açúcar e, um detalhe, que não podia faltar, as rosquinhas da Geni. Geni é uma casa de massas super tradicional em Santos.

Eles fazem um biscoito de araruta incrível, além de outras delícias. Acho que minha avó era a maior compradora das rosquinhas. Não podia faltar. Daí o café, as rosquinhas e as boas companhias sempre foram um prato cheio para as histórias bem contadas. “Sabe o que eu lembrei?” E aí vinham as anedotas da minha tia Lourdes, que está firme e forte, as risadas altas e mais café. Ora ele estava forte para alguns, fracos para outros, mas sempre bom. Às vezes iam duas garrafas. E chegava quase na hora de comer novamente e comprar as médias na padaria. A orientação era para pegar as bem fresquinhas. Ela gostava das escurinhas e analisava a fornada que trazíamos. Os pequenos prazeres da vida que não adianta nem a gente tentar esquecer. Eram só detalhes, mas que hoje se tornaram imensos. Obrigada, vó.

*Mariana Proença é jornalista. Em 2006 assumiu a direção de conteúdo da Revista Espresso e, meses depois, o café já virou uma paixão que dura até hoje. Nesta coluna ela aborda diversos temas e experiências sobre a profissão barista. Fale com a colunista: mariana.proenca@cafeeditora.com.br

ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

Café de precisão

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Quando o barista está envolvido entre balanças, termômetros, chaleiras, água quente, dosadores, moinhos, cronômetros, pitchers, tampers e, claro, cafés especiais, ufa!, normalmente sai muita coisa boa dali. Hoje, cada vez mais, temos acesso a utensílios modernos para o preparo da bebida. Mas essa não é a realidade da maioria. O Brasil continua mantendo seus 97% de consumidores de café coado feito de forma tradicional, em casa, porém há mais gente interessada em novas formas de fazer do café um hábito inovador.

Por isso as cápsulas e as novidades que elas trazem são tão amadas no Brasil e vêm crescendo a galopantes 46,5% entre 2012 e 2013, segundo pesquisa da consultoria Nielsen. Mas o total de lares que têm cápsulas ainda é pequeno (0,6% dos domicílios no País), o que demonstra o enorme potencial que ainda existe.

Na época que as cápsulas chegaram por aqui, abriu-se debate sobre a continuidade da profissão barista. Com o tempo e os novos métodos de café surgindo, viu-se que havia espaço para os dois caminhos. E, mesmo dentro das grandes marcas de monodoses, há baristas trabalhando e pesquisando sobre o tema café.

Países mais maduros no consumo de café especial estão numa fase diferente da nossa, mas que, logo, logo, chegará por aqui. É o café coado high-tech. O espresso está na crista da onda quando o assunto é tecnologia de extração, máquinas caseiras e profissionais. Já o coado, nos últimos anos, voltou-se para o lado manual, com inúmeros preparos supermodernos, com filtros de formatos diversos, pressões e infusões variadas, que dependem muito da mão do barista.

Nas cafeterias, esses métodos são servidos como diferencial e agregam maior valor ao gasto médio do cliente, além de trazer junto o conceito de apreciar com mais calma a bebida: o slow coffee. Os preparos manuais exigem muito conhecimento. Qualquer deslize na quantidade de café, na inclinação da chaleira, na temperatura da água e no humor do barista pode arruinar um preparo.

Estão pipocando pelo mundo invenções que procuram diminuir essas variáveis e que são principalmente positivas para cafeterias que queiram ter volume de serviço e padrão de bebida. Mas também há equipamentos para uso residencial, que se assemelham ao conceito da cafeteira elétrica, mas que têm muita tecnologia aplicada. Nessas inovações, o mais comum hoje é ver aplicativos de mobiles que se conectam com máquinas e, a partir de informações salvas do perfil do usuário, produzem as bebidas de preferência daquela pessoa. Se você gosta do café mais diluído, mais forte ou com leite e também quer controlar a temperatura ideal para a extração, o aplicativo armazena tudo.

Com uma busca no site KickStarter, que arrecada fundos para projetos inovadores, é possível achar várias ideias incríveis de café. Uma delas é a máquina Arist, feita por uma empresa de Hong Kong, que já alcançou a meta de 120 mil dólares e vai produzir o equipamento. Entre as funções para preparar o café, há salvar as receitas preferidas, ajustar a quantidade de leite, a temperatura da água, a pressão e a moagem do café, sempre atendendo ao que o dono da máquina gosta. O slogan é “Como os melhores baristas fazem”.

Nessa linha de inovações, o barista norueguês e campeão mundial em 2004, Tim Wendelboe, assina um equipamento para café filtrado, o Wilfa Svart, que é muito simples, com design clean e precisão de temperatura e quantidade de café. Nele o apreciador prepara a bebida com as quantidades exatas e ideais para cada grão.

Por fim, as cafeterias que querem investir no preparo filtrado já têm diversos equipamentos que ficam embutidos no balcão: torre de água, balança e até lavador de xícaras, como é o caso da Über Boiler, equipamento da Marco desenvolvido em parceria com o barista James Hoffmann. Porém nada disso funciona perfeitamente sem conhecimento e estudo do barista. Ele é o profissional que vai explicar tudo sobre os cafés e os preparos. Porque uma boa conversa no balcão, ah, para essa ninguém encontrou um substituto ainda.

*Mariana Proença é jornalista. Em 2006 assumiu a direção de conteúdo da Revista Espresso e, meses depois, o café já virou uma paixão que dura até hoje. Nesta coluna ela aborda diversos temas e experiências sobre a profissão barista. Fale com a colunista: mariana.proenca@cafeeditora.com.br

ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes

Eles passarão, eu cafezinho

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A língua está em constante mudança e as palavras sempre em processo de evolução. Assim como o café também. Alguns vocábulos caem em desuso, assim como alguns métodos de preparo ganham releituras. A estruturação e a origem das palavras e dos hábitos têm vida. É disso que vou falar hoje.

Pois bem, o café chegou aqui em 1727, com o senhor Francisco de Melo Palheta, que introduziu as primeiras mudas no Brasil. Desde então sabemos que a história desse grão não pode mais ser dissociada da história do País. Mas quando será que a primeira pessoa disse: “Aceita um cafezinho?” ou “Vamos tomar um cafezinho?” Difícil de saber. O que realmente sei é que essa simples pergunta define muito o nosso modo de pensar o café.

Voltemos para os dias atuais, ao início dos anos 2000, quando o conceito de café especial começou a ser divulgado no Brasil. Muitos artigos sobre o tema passaram a ser escritos, empresários abriram seus negócios de cafeterias e torrefações especializadas; o varejo passou a olhar com outros olhos para esse produto. O “cafezinho” então ganharia ares mais modernos. Mas como fazer com que esse produto fosse mais valorizado se ele era só um “cafezinho”?

Questionei isso logo que comecei a escrever sobre café. Em um rompante baixei um decreto na redação: é proibido o uso da palavra “cafezinho” nas publicações. Não dessa forma assim, antidemocrática, mas foi quase uma imposição mesmo: vamos escrever sempre “café”. Nada de “pretinho básico” ou “cafezinho gourmet”. Por que usá-lo de forma tão pejorativa? Pensava eu. A defesa sempre foi: vamos exaltar, quase dizer, cafezão (exagerando bem). Temos que fazer com que as pessoas entendam esse produto como ele é. Na época, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) criou até o personagem: Super Café. Ele voava pelos cafezais, passava por dentro das casas e falava que o café é muito saudável para todas as idades.

Enfim, anos se foram e as pessoas continuaram a me chamar para um “cafezinho”. Os cafés melhoraram muito. A qualidade do que temos hoje é infinitamente superior. Mas, realmente, o meu decreto foi em vão. Joguei a toalha. O filtrado ainda continua sendo café passado. O café vai ser sempre o cafezinho.

Para não ficar tão chateada, fui atrás do significado da palavra. Por que na língua portuguesa usamos tanto o diminutivo? Será que é um recurso usado em outras línguas? Sim, é. Mas somos únicos nesse exagerozinho, eu acho. O uso do diminutivo está ligado, muitas vezes, diretamente ao afetivo, carinhoso, sentimental, de ternura. Aquilo que é nosso, que está, segundo o escritor Luís Fernando Veríssimo “perto de nós, de aconchego, familiar, à mão, é o da gente”. O café é isso tudo.

Como desvincular toda essa história de amor pela bebida e passar a chamar de forma sisuda o café de todo o dia? Difícil. Porém, mesmo voltando atrás na língua falada, ainda quero reforçar que vocês não encontrarão tão facilmente o “cafezinho” nessas páginas. Talvez eu nunca tenha escrito tantas vezes essa palavra. Afinal, a palavra escrita não tem toda aquela inflexão da voz carinhosa de quando convidamos alguém para uma tarde de conversas regadas a café. Mas eu sei que, mesmo com a evolução da língua, não deixaremos de usar o nosso “inho”. Em Minas Gerais a história é até mais amorosa. Virou “cafezim” que vem sempre acompanhado de um “docím” e de uma “prosinha”.

Mas o que eu quero mesmo é que, cada vez mais, possamos tomar cafezinhos melhorzinhos por aí. E lembrando Mário Quintana, com seu Poeminha do Contra, de 1978, peço licença ao poeta para adaptar o famoso trecho “Eles passarão, eu passarinho”. Para brincar com aquele café que a gente sempre vai passar e que sempre será o nosso queridinho: “eles sempre passarão, e, nós, por que não? Cafezinho, por favor”.

*Mariana Proença é jornalista. Em 2006 assumiu a direção de conteúdo da Revista Espresso e, meses depois, o café já virou uma paixão que dura até hoje. Nesta coluna ela aborda diversos temas e experiências sobre a profissão barista. Fale com a colunista: mariana.proenca@cafeeditora.com.br

ILUSTRAÇÃO Eduardo Nunes